"Não é muito, mas me faz feliz"

Posted: 6.1.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Eva Briegel, vocalista da banda alemã Juli
Ouvir músicas, compreendê-las e cantá-las é uma das melhores formas de adquirir novo vocabulário em um idioma. Durante todos estes anos que venho estudando alemão sempre pesquisei por novas bandas com esse objetivo, mas confesso que nunca gostei da ampla maioria do que conheci (talvez eu seja meio chato para isso mesmo). Até que há cerca de um ano, no entanto, encontrei enfim uma banda que consigo ouvir fora das horas de estudo: a banda pop alemã Juli.

Formada em 2004, a banda lançou seu 4º disco, Insel, em outubro de 2014. A música que compartilho abaixo faz parte deste álbum. Pelo fato de ter conseguido acesso a esta obra poucas semanas após seu lançamento, a letra de Es ist nicht viel ainda não estava disponível na internet (por incrível que pareça, algo que não estava na internet!), mas consegui compreender o refrão sem dificuldades: "Es ist nicht viel, doch es macht mich glücklich" ("Não é muito, mas me faz feliz"). Achei isso tão bonito, tão singelo, que tive curiosidade em saber o que dizia o restante. Consegui compreender cerca de 80% da música sozinho, para minha surpresa. Enviei então minha transcrição parcial a um colega da Alemanha com quem me correspondo e ele confirmou que estava praticamente tudo correto! :-D

Compartilho abaixo a tradução desta música e, para quem gostar, recomendo também outras do grupo, como Geile Zeit, November, Du lügst so schön, Zerissen, Tage wie dieser, Regen und Meer, Ich bin in love, Süchtig, Insel, etc.

P.S.: Talvez o mais interessante nas letras da banda seja uma leve melancolia, uma certa tristeza, uma saudade de tempos áureos que se foram e que nunca mais voltarão, de uma recusa do mundo como é, de uma projeção utópica (o que não quer dizer irrealizável) de como tudo pode e deve ser diferente - a clássica oposição filosófica entre Sein e Sollen. Estes temas sempre reaparecem em suas músicas.

Certa vez, ao ler um texto da vocalista Eva Briegel publicado na revista Zeit, no qual ela revela sua relação conflituosa com o tema da morte, pude compreender um pouco melhor algumas de suas letras. Este é também um dos temas que mais me interessa no campo da Filosofia. Seu artigo pode ser acessado neste link: "Meine Albträume haben mit dem Tod meines Bruders zu tun."



Es ist nicht viel

Es gibt so viele Sachen,
die unentwegt nach mir rufen
Es gibt so viele Dinge, die ich nicht hören will.
Heiße Luft steht im Raum
Und mir stockt der Atem
Niemand hat sich was zu sagen
Doch es wird nie still

Und jede Nacht, die selben Gespräche,
die selben Gesichter und das Bier in der Hand
Ich bin heimlich nach draußen gestolpert
und auf Socken nach Hause getanzt

Es ist nicht viel doch es macht mich glücklich
Ich laufe so lange bis ich den Boden nicht mehr spüre
Es ist nicht viel doch es macht mich glücklich
Es wäre alles so leicht wenn es immer so wäre
Es ist nicht viel doch es macht mich glücklich

Kalte Luft auf der Haut
Ich will nicht mehr warten
Weil jeden Schritt von mir spüren,
Wenn ich durch leere Straßen laufe.
Es gibt so viele Sachen, die blind nach mir greifen
Ich reiße mich los, mit dem Herz durch die Wand
Ich bin heimlich nach draußen gestolpert
Und auf Socken nach Hause getanzt

Es ist nicht viel doch es macht mich glücklich
Ich laufe so lange bis ich den Boden nicht mehr spüre
Es ist nicht viel doch es macht mich glücklich
Es wäre alles so leicht wenn es immer so wäre
Es ist nicht viel doch es macht mich glücklich


Não é muito

Há tantas coisas
Que incessantemente me chamam
Há tantas coisas
Que eu não quero ouvir
Um ar quente toma o ambiente
E me tira o fôlego
Ninguém tem o que dizer
Mas nunca há silêncio

E toda noite, as mesmas conversas
Os mesmos rostos e a cerveja na mão
Discretamente me vejo lançada para fora
E, de meias, dançando para casa

Não é muito, mas me faz feliz
Eu corro tanto até não mais sentir o chão
Não é muito, mas me faz feliz
Seria tudo tão fácil se fosse sempre assim
Não é muito, mas me faz feliz

Um ar frio sobre a pele
Não quero mais esperar
Porque sinto cada passo meu
Quando corro pelas ruas vazias
Há tantas coisas que cegamente me alcançam
Em me rasgo ao meio, com o coração através da parede
Discretamente me vejo lançada para fora
E, de meias, dançando para casa

Não é muito, mas me faz feliz
Eu corro tanto até não mais sentir o chão
Não é muito, mas me faz feliz
Seria tudo tão fácil se fosse sempre assim
Não é muito, mas me faz feliz

Trecho de uma entrevista de Theodor Adorno à revista Der Spiegel

Posted: 26.11.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Trecho selecionado por mim como um dos candidatos ao prêmio de Melhor Início de Entrevista de todos os tempos.

SPIEGEL: Senhor professor, até duas semanas atrás o mundo ainda parecia em ordem...

ADORNO: A mim não.

SPIEGEL: 




(Entrevista de Theodor Adorno à revista alemã Der Spiegel, em maio de 1969)




Adicionar letra ao MP3

Posted: 15.11.14 by Glauber Ataide in
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O post desta vez é um pouco diferente dos temas geralmente abordados neste blog, mas gostaria de compartilhar algo que me foi muito útil. Você sabia que é possível armazenar a letra de uma música no próprio arquivo MP3?

Ok, mas pra que alguém iria querer isso?

No meu caso foi pelo seguinte: é que eu ouço LOTS OF music nos idiomas que estudo. Isso é uma forma muito efetiva de  se expandir o vocabulário, e até mesmo de melhorar a pronúncia, quando também cantamos as músicas.

Mas nem sempre estou em frente do computador para ter acesso às letras que ainda não sei de cor ou que não consigo compreender. Tipo naquelas 3 horas que perco diariamente dentro de um ônibus coletivo, indo e voltando do trabalho... Então sempre procuro fazer algo produtivo nessas valiosas horas, e uma delas é ouvir músicas em alemão ou francês.

Descobri então que nos celulares e dispositivos que rodam o sistema Android, a letra da música é exibida se ela estiver armazenada no arquivo MP3. E foi então que pesquisei até descobrir como se faz isso.

Adicionar letra ao arquvivo MP3

É o seguinte: todo arquivo MP3 tem uma série de informações armazenadas por TAGS. As mais comuns você já conhece, e são o nome da música, o nome do artista, do álbum, etc. Mas há uma porção de outras tags que também podem ser utilizadas, e uma delas é a tag para armazenar a letra.

Para isso é necessário um software editor de tags de arquivos MP3. O melhor que encontrei, e que funcionou perfeitamente, suave, com manteiga, foi este aqui:

http://www.mp3tag.de/en/download.html

Após baixar este software, carregue um arquivo (ou uma pasta de arquivos) MP3, clique com o botão direito em cima dele e depois em "Tags".



Em seguida clique no botão "Adicionar campo..."



Na janela que abrir, selecione (ou digite) a opção UNSYNCEDLYRICS e, no campo abaixo, insira a letra.



Prontinho! Fácil demais, n'est-ce pas?

Apenas verifique nas configurações do seu aplicativo se a opção "Letra" está marcada. No meu ela está assim:



Agora, ao tocar o MP3 em um aparelho Android, a letra será exibida, como neste print do meu aparelho:








O ódio ao PT e os "dois minutos do ódio" em 1984, de George Orwell

Posted: 17.10.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Quem já leu a obra 1984, de George Orwell, deve se lembrar de um estranho "ritual" em que as pessoas eram obrigadas a participar diariamente: o chamado "Dois minutos do ódio". Este consistia na exibição, em uma "teletela" (uma espécie de televisão que também filma o telespectador), da imagem e da fala de Emanuel Goldstein, o líder exilado da oposição ao governo totalitário do Grande Irmão (Big Brother), juntamente com outros opositores do "Partido" (como é chamado o partido do Big Brother, o Ingsoc).

Durante os "Dois minutos do ódio", as pessoas são levadas a um estado de exaltação histérica, de muita raiva, de ódio, onde proferem insultos e ameaças contra a imagem exibida na teletela. Algumas vezes os telespectadores partem até mesmo para a agressão física contra o aparelho.

Um dos aspectos mais impressionantes sobre este mecanismo de manipulação e de indução ao ódio, no entanto, é que não poderia ser apenas o conteúdo do discurso de Goldstein a suscitar esta reação. Nos "Dois minutos do ódio", Goldstein aparecia na tela denunciando justamente a opressão imposta pelo Grande Irmão ao país, exigindo o imediato acordo de paz com as nações inimigas, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de reunião, de pensamento, etc.

Impossível não relacionar esses diários "Dois minutos do ódio" aos nossos telejornais diários. A prática política do PT, por si só, não dá conta de explicar, de exaurir, ou seja, não é razão suficiente de toda essa reação de ódio de que tem sido alvo. Pois outros governos fizeram o mesmo - ou pior - e não foram alvo de tantas hostilidades.

A metáfora de Orwell traduz de maneira muito sensível a maneira como é orquestrado este mecanismo de manipulação. Capas de revistas como Veja ou Isto é ilustram bem isso: a exposição de "inimigos" fotografados pelos ângulos mais desfavoráveis com a intenção de provocar desprezo, textos com a intenção de levar os leitores a um frenesi, reproduzindo falas distorcidas ou pela metade (quando não inventadas), omissão de informações essenciais e toda sorte de sujeira para defender interesses que são sempre apresentados com um manto de "objetividade".

Em 1984, à medida que Goldstein defendia bandeiras progressistas contra a ditadura do Grande Irmão, o ódio dos telespectadores apenas aumentava. As pessoas pulavam em seus assentos, gritando como animais, com todas as suas forças, numa tentativa de calar a voz que vinha da teletela. Parece que Orwell conseguiu antecipar em muitas décadas como a nossa classe média branca assiste ao Jornal Nacional.

Veja abaixo um trecho da adaptação de 1984 para o cinema que retrata os dois minutos do ódio.

Um problema de tradução da Martin Claret - O Anticristo, de Nietzsche

Posted: 26.7.14 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Semestre passado estudei O Anticristo, de Nietzsche, na universidade. Foi uma matéria optativa muito interessante, chamada "Crítica da religião - O Anticristo, de Nietzsche, e O futuro de uma ilusão, de Freud". 

Acompanhei o curso com as edições que eu já tinha da obra do Nietzsche: uma em português, da editora Martin Claret, e o original em alemão. Quando cheguei no aforismo 7 fiquei estarrecido com o tamanho dos trechos que simplesmente estão faltando na edição da Martin (sublinhei de vermelho, na foto abaixo da edição alemã, os trechos que não foram traduzidos). Primeiramente eu até pensei que poderia ser algum problema de ordem meramente técnica da edição, mas não dá pra explicar por que a tradução "salta" de um ponto para outro do texto assim. E o trecho assinalado com uma interrogação indica que no português há uma tradução estranha,  mais um "resumo" do que uma tradução propriamente dita.







Sobre crianças, ouvir histórias e assistir desenhos

Posted: 23.6.14 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Há alguns anos que leio as histórias dos irmãos Grimm para minha filha à noite (são mais de 200), e à medida que ela cresce aumenta sua percepção e compreensão de algumas coisas antes não questionadas. Logo na primeira frase da história de ontem ("Era uma vez um lenhador muito pobre que...") ela me interrompeu: "Pai, peraí: por que toda história começa falando de alguém que é muito pobre?" E eu não pude deixar de inserir um elemento crítico em relação aos desenhos de princesa da Disney que ela conhece: "Filha, porque a maioria das pessoas no mundo é pobre e trabalhadora, e essas histórias e folclores que os irmãos Grimm escreveram eram contados pelo povo. Você por acaso conhece alguma princesa igual aos desenhos da Disney? Tem alguma coleguinha sua assim na escola? A maioria dos pais são pobres e saem de casa bem cedo pra trabalhar e voltam só à noite, como o lenhador." Isso a fez comparar tanto sua vida quanto a de suas coleguinhas com alguns desses desenhos: "Aaaahh, não tenho nenhuma coleguinha assim..."

E isso me trouxe novamente a questão sobre que tipo de desenhos e histórias é desejável que a criança tenha acesso. Não proíbo minha filha de assistir nenhum desenho animado, a não ser que seja inapropriado para sua idade. Acho que proibir é pior, e para mim não é uma opção. O importante, a meu ver, é ensinar à criança desde cedo o exercício da dúvida ("será que Deus existe mesmo?", "existem princesas? quem são, onde moram?"), instigar a suspeita de que a realidade das coisas é diferente de sua aparência, mas sem prejuízo da imaginação infantil. O fantasiar é muito importante para a saúde psíquica da criança, pois lhe ajuda a lidar com diversas dificuldades inerentes ao processo de crescimento (como afirma este livro do Bettelheim). E essas histórias compiladas pelos Grimm, pelo fato de terem sido construídas coletivamente através de gerações, expressam profundas realidades inconscientes. Tais histórias possibilitam à criança trabalhar a faculdade da imaginação, coisa que a indústria cultural infantil rouba à criança desde muito cedo. E por fim acho também muito importante este hábito de contar histórias às crianças. (Não só que elas leiam, mas que ouçam as histórias.) Para as crianças há toda uma aura em torno de adultos que lhes contam histórias.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite, de Pablo Neruda

Posted: 26.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Pablo Neruda)

Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo

Posted: 23.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Se eu morresse amanhã
(Álvares de Azevedo)

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Albert Camus: se eu me matasse, descobriria então que não tenho amigos

Posted: 21.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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"Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu o descobri no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça, para puni-los, de certa forma. Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria punido. Compreendi que não tinha amigos. Além disso, mesmo se os tivesse, não adiantaria nada. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então, sim, valeria a pena." (Albert Camus, A queda)

Freud e a melancolia: por que precisamos adoecer para saber a verdade sobre nós mesmos?

Posted: 20.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No trecho abaixo Freud descreve algumas características da melancolia e sua relação com o luto. A melancolia, grosso modo, se instala a partir da perda do objeto - como o término de um relacionamento, por exemplo. Freud faz então uma afirmação interessante: a baixa auto-estima que o melancólico apresenta, assim como suas recriminações a si próprio, não são de todo erradas; a questão é saber por que as pessoas precisam adoecer para ter acesso a tais verdades sobre si próprias.

"O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto — uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua autocrítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e — o que é psicologicamente notável — por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida.

"Seria igualmente infrutífero, de um ponto de vista científico e terapêutico, contradizer um paciente que faz tais acusações contra seu ego. Certamente, de alguma forma ele deve estar com a razão, e descreve algo que é como lhe parece ser. Devemos, portanto, confirmar de imediato, e sem reservas, algumas de suas declarações. Ele se encontra, de fato, tão desinteressado e tão incapaz de amor e de realização quanto afirma. Mas isso, como sabemos, é secundário; trata-se do efeito do trabalho interno que lhe consome o ego — trabalho que, nos sendo desconhecido, é, porém, comparável ao do luto. O paciente também nos parece justificado em fazer outras auto-acusações; apenas, ele dispõe de uma visão mais penetrante da verdade do que outras pessoas que não são melancólicas. Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie." (Freud, Luto e Melancolia)