Chutes altos sem aquecimento - chutes laterais

Posted: 2.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Chutes altos sem aquecimento,  o alinhamento correto do corpo para chutes laterais
Por Thomas Kurz

Este é o sexto artigo da minha coluna sobre treinamento que apareceu na edição de janeiro de 2000 na revista Taekwondo Times.

Para ler o artigo anterior, clique aqui

Além da forma correta de desenvolver flexibilidade - o que significa fazer os alongamentos corretos na hora correta, para dar chutes altos sem nenhum tipo de aquecimento -, você precisa também conhecer e praticar a técnica correta de chutar, incluindo o alinhamento correto do corpo. Neste artigo você aprenderá o alinhamento correto do corpo para o chute lateral. O chute de gancho (puxando) eu abordarei no próximo artigo.

Quando eu comecei a treinar Karate na Polônia, aos 20 anos de idade, era óbvio para mim que se alguma pessoas precisavam se preparar, alongar e se soltar antes de chutar, então havia algo de errado ou com elas, ou com seus chutes.

Eu sabia como me alongar porque eu já estava na AWF (Universidade de Educação Física). Mas alguns intrutores de Karate me mostravam chutes altos que forçariam meus ligamentos, mesmo minha flexibilidade sendo boa. O problema era que o alinhamento do corpo que funcionava para um determinado chute quando seu alvo era baixo (como no Karate Okinawan original) não funcionava quando o alvo era alto - não funcionava, quer dizer, a não ser que a pessoa tivesse uma extraordinária amplitude de movimento nos quadris e nas juntas da parte inferior das costas. (Os chutes altos que tanto atraem os jovens foram introduzidos no Karate por Yoshitaka Funakoshi, filho de Gichin Funakoshi, sem nenhuma preocupação se eles faziam sentido em combate [Draeger, 1974, p. 134].)

Felizmente eu conheci Mac Mierzejewski, o autor de Power High Kicks with No Warm-Up! ("Chutes Altos Fortes sem Aquecimento!", em tradução livre), um excelente lutador de Karate e instrutor que também estudou na AWF. Ele era menos flexível que eu, mas podia dar qualquer chute mais alto do que eu podia dar, com força suficiente para nocautear, e sem nenhum alongamento prévio.

Durante nossos treinos individuais ele me ensinou como alinhar o corpo para uma maior altura e mais potência nos chutes, sem ter que alcançar os limites da amplitude de movimento nas juntas dos quadris. Ele me mostrou os "pequenos" detalhes das técnicas de chutes que te permitem chutar algo e com potência sem aquecimento! E como bônus, estes mesmos pequenos detalhes reduzem as chances de lesões.

Sim, você pode aprender a dar chutes altos estando "frio(a)", sem se machucar, sem puxar os músculos, ou mesmo sem sentir dores. Tudo que você precisa é aprender (e praticar!) o correto alinhamento do corpo para se certificar que seus quadris e joelhos não se machuquem ao dar chutes laterais e chutes ganchos.

Eu usarei o exemplo de um chute lateral de levantamento de perna (yoko keage, no Karate), um chute que deveria ser aprendido antes de aprender o chute alto lateral com impacto no alvo (yoko geri kekomi, no Karate, e Yop-chagi, no Taekwondo), para mostrar como pequenos ajustes em seu posicionamento podem aumentar a altura do chute.

Quando aprendendo o chute lateral de levantamento de perna você deve começar com o levantamento de perna mostrado no artigo anterior (quinto) desta coluna, na Taekwondo Times de novembro de 1999. Este exercício (de levantar a perna para o lado) te permitirá eventualmente alcançar um chute lateral mais alto. Muitas pessoas sentem um pouco de desconforto, até mesmo de dor, quando tentando este alongamento dinâmico. Elas podem levantar cada perna cerca de 45º (e dói mesmo assim).

O problema? Elas tentam manter a perna reta, e levantar a perna reta lateralmente enquanto tentam manter o corpo inteiro reto também. Esta é tipicamente a causa das dificuldades e das dores nos quadris entre iniciantes que tentam dar este chute. Quem não é ensinado a levantar a perna corretamente ou a dar este chute em sua aplicação de combate tende a fazê-lo desta maneira incorreta.

Para aumentar substancialmente a altura do chute lateral de levantamento de perna, você precisa inclinar a sua pélvis para frente ao mesmo tempo que levanta sua perna para o lado. Para aprender a forma correta faça o seguinte: fique de pé com os pés juntos, estenda seu braço direito para o lado, com a mão à altura dos quadris, palma para baixo. Dobre levemente sua perna direita nas juntas do quadril e do joelho. Posicione seu pé corretamente para o chute lateral (pé de faca, sokuto, no Karate, e balnal, no Taekwondo). Levante a perna direita de forma a chutar a palma da sua mão com a lateral do seu pé. Comece na altura do quadril e aumente a altura dos chutes gradualmente. Certifique-se que você está se inclinando para a frente e de que seu joelho está levemente dobrado, e que ele se levanta à frente de seu pé. Chutar a palma da mão te força a alinhar seu tronco, sua pélvis e a coxa da maneira correta para uma maior amplitude de movimentos nas juntas do quadril. Preste atenção principalmente na direção e na curvatura da inclinação para frente nos desenhos abaixo.



Outro motivo para chutar a palma da mão é para evitar que o alongamento dinâmico se torne um alongamento balístico, sem controle, e para previr alongar além do necessário.

Por falar nisso, a causa da dor e da limitação do movimento lateral tanto no chute de levantamento de perna quanto na abertura lateral é a mesma. Ela é causada pelo abrir (abduzir) das coxas sem inclinar a pélvis para a frente. A "cura" para a dor no lado externo do quadril é inclinar a pélvis para a frente (o que é o mesmo que flexionar os quadris) enquanto tentando o chute lateral ou a abertura. O alinhamento do quadril, da parte inferior da perna e do pé no chute lateral deve ser o mesmo mostrado na visao lateral da posição de montar cavalo (veja o segundo artigo desta coluna na Taekwondo Times, maio de 1999).

Crianças abaixo dos 11 anos não experimentam esta limitação do movimento, pois o ângulo que o colo dos ossos da coxa fazem com os ossos dos quadris é diferente dos adultos. Em crianças, o colo do osso da coxa vai mais agudamente para baixo e mais suavemente para frente. Isso faz o colo da coxa ter contato com o canto superior da cavidade do quadril em uma maior amplitude de abdução do que em adultos, além de manter separado o trocanter do osso do quadril de forma a não restringir o movimento tanto quanto nos adultos. À medida que as crianças crescem, este ângulo gradualmente muda. O colo da coxa se torna mais próximo de um plano horizontal e gira mais para a frente. Estas mudanças reduzem a abdução da coxa, assim como sua rotação externa (também conhecida como "giro para fora" ou "primeira posição" no balé). Por volta dos 11 anos este ângulo se acomoda. Eu explico como esta rotação externa se relaciona com a abertura lateral na página 110 de Stretching Scientifically.

Como saber se você tem potencial para fazer uma abertura frontal

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Testando seu potencial para fazer uma abertura frontal

Tradução de Glauber Ataide

Este é o terceiro artigo de minha coluna sobre treinamento que apareceu na edição de maio de 1999 na revista Taekwondo Times

Para ler o artigo anterior, clique aqui

No primeiro artigo desta coluna você aprendeu como determinar se tem potencial para fazer uma abertura lateral, mesmo antes de começar seu programa de alongamento. Neste artigo você aprenderá se os ligamentos e a musculatura de suas coxas e quadris lhe permitem fazer uma abertura frontal.

Este é o teste para a abertura frontal: faça um longo agachamento (como na foto abaixo). Se suas coxas estão quase formando uma linha reta como em uma abertura frontal, isso significa que as juntas do seu quadril e os seus ligamentos não te impedem de fazer uma abertura frontal. Apenas um endurecimento de seu tendão do jarrete e dos músculos da panturrilha, e em alguns casos dos músculos iliopsoas podem te impedir de se sentar completamente em uma abertura frontal com ambas as pernas retas. Com o método correto de alongamento você irá relaxar, ou mesmo alongar estes músculos e será capaz de fazer a abertura frontal sem aquecimento.



Tanto na abertura frontal quanto na lateral, aliviando a tensão dos músculos ao redor das juntas aumenta  a amplitude de movimento delas, provando que é apenas a tensão muscular o que te previne de fazer aberturas. A tensão muscular tem dois componentes: a tensão gerada pelo elementos contráteis (fibras musculares) e a tensão presente em um músculo inativo, desnervado, exercida pelos tecidos conjuntivos associados ao músculo.

Alguns autores (M.J.Alter, B.Anderson, H.A.deVries, S.A.Sölveborn) afirmam que a tensão dos tecidos conjuntivos tendem a ser o principal fator que restringe a flexibilidade. Eles defendem alongamento estático lento, mesmo em um aquecimento, como se os músculos fossem peças de fábrica a serem alongado para o tamanho desejado. Ramsey e Street (1940), no entanto, provam e afirmam claramente que se o alcance da extensão não exceder a 130% do comprimento em repouso (30% a mais do que o comprimento em repouso), a tensão em repouso em um músculo não-contraído é muito pequena. (O comprimento em repouso de um músculo é o comprimento músculo não-contraído e não-alongado do corpo.)

De forma semelhante, Shottelius e Senay (1956) mostram que, em um músculo alongado acima dos 100% de seu comprimento em repouso, a tensão passiva gerada pelos tecidos conjuntivos é uma pequena fração da tensão devido à contração ativa. Eles mostram que eventualmente, a aproximadamente 120% do comprimento em repouso de um músculo, os dois componentes da tensão muscular contribuem igualmente para a tensão total. A comprimentos maiores, a tensão passiva aumenta enquanto a tensão ativa, gerada por fibras de músculos contraídas, diminui.

Para propósitos práticos, enquanto você sentir que seus músculos contraem em resposta a um alongamento, isso significa que relaxando-os você pode melhorar seu alongamento e que você deveria se preocupar mais com o controle nervoso da tensão dos músculos e menos com o tecido conectivo dos músculos. Este conceito é contundentemente mostrado no teste de abertura lateral publicado na edição de março de 1999 da revista Taekwondo Times.

Na próxima coluna você aprenderá sobre os tipos de flexibilidade e sobre o papel das aberturas no Taekwondo, Karate e no Kickboxing. (Se você acha que as aberturas são necessárias para chutar alto, você está errado.)

Dificuldades em fazer uma abertura lateral

Posted: 30.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Dificuldades em fazer uma abertura lateral

Por Thomas Kurz

Este é o segundo artigo que apareceu na minha coluna sobre treinamento na edição de maio de 1999 da revista Taekwondo Times.

No primeiro artigo da coluna Stretch Yourself você aprendeu como determinar se você tem potencial para fazer uma abertura lateral, mesmo antes de iniciar seu programa de alongamento. Você também aprendeu que para muitos adultos, a abertura lateral ainda é muito difícil, mesmo tendo passado no teste de abertura lateral. Em um certo ponto, bem antes de chegarem a uma abertura total, eles sentem um "pare" acompanhado por dores na parte externa do quadril ou na parte superior da coxa, a qual os impede de completar uma abertura total. Neste artigo você aprenderá o que causa esta dor e o que fazer quanto a isso.

O problema não parece estar relacionado aos adutores (músculos internos das coxas), já que estas pessoas não sentem muita tensão ali. Ao que eles continuam alongando, sua flexibilidade de fato melhora, mas muito lentamente.

Esta barreira é muito comum para pessoas que começam a alongar já adultas. A dor e a limitação do movimento para o lado na abertura lateral é causada ao se abrir (abduzir) as coxas sem inclinar a pélvis para a frente. Esta inclinação alivia os ligamentos capsulares do quadril, entre eles o ligamento pubofemoral que em uma posição normal, não-flexionada, resistiria a uma abdução excessiva e iria também, durante uma abdução reta, empurrar o pescoço (ou colo) do fêmur para dentro do labrum acetabulare no canto superior do encaixe do quadril. Em pessoas nas quais o ângulo entre o pescoço (ou colo) e o eixo do fêmur é menor que 135º, a abdução sem o inclinamento da pélvis faz colidir o trocanter maior (um processo ósseo no topo do femo) contra o osso do quadril.


A inclinação da pélvis para frente (flexão do quadril) realinha suas juntas de forma que seus ligamentos relaxam, o pescoço (ou colo) do fêmur não colide com a cartilagem na parte superior do encaixe, e o trocanter maior se encaixa em um espaço através do encaixe do quadril. Este é o alinhamento de seus quadris na posição de montar cavalo quando feita corretamente, e é por isso que o alinhamento de seus quadris, coxas, partes inferiores da perna e dos pés em uma abertura lateral deve ser a mesma.



Esquerda - Posição inicial para uma abertura lateral com os pés apontando para frente.
Centro - Abertura lateral com os pés apontando para frente. As pernas são abertas lateralmente e a pélvis é inclinada para frente.
Direita - Abertura lateral com os pés apontando para cima. Os quadris estão  retos graças à rotação das coxas.

Observe que ao fazer uma abertura lateral com os dedos dos pés apontando para frente você não apenas abre as pernas lateralmente, mas também inclina a pélvis para frente. Em uma abertura lateral com os pés apontando para cima, você mantém a pélvis reta mas gira as coxas para fora. O alinhamento dos quadris e das coxas em ambos os tipos de abertura é o mesmo.

Outra forma de encontrar o alinhamento correto é usar a posição de montar cavalo como a posição inicial de seus alongamentos isométricos levando à abertura lateral. Apenas certifique-se de que sua posição está correta, com suas coxas paralelas ao chão a qualquer distância, com os dedos dos pés apontando para frente, e o peito estufado.

Para fazer uma posição em cinco passos fique em estado de atenção (pés lado a lado), e então vire os seus calcanhares para fora (um passo), então gire para fora os dedos dos pés (dois passos), então os seus calcanhares novamente (três passos), então gire para fora os dedos dos pés novamente (quatro passos), e então gire para fora os calcanhares (cinco passos).

Para resumir, você não pode fazer uma abertura lateral sem girar as coxas para fora ou inclinar a pélvis para frente. A rotação para fora ou a inclinação para a frente (flexão do quadril) alivia os ligamentos capsulares dos quadris, entre eles o ligamento pubofemoral, o qual resiste a abduções excessivas. Abrir as pernas sem estes movimentos adicionais torce e aperta os ligamentos do quadril e empura o pescoço (ou colo) do fêmur para dentro do colar de cartilagem no canto superior do encaixe do quadril. Para pessoas com coxa vara (com um ângulo menor que 135º entre o pescoço e o eixo do fêmur), abduzir a coxa sem inclinar a pélvis empurra o trocanter maior contra o osso do quadril sobre o acetabulum (a cavidade da junta do quadril).

Este choque do pescoço (ou colo) do fêmur com a cartilagem ou do trocanter maior com os ossos do quadril é a causa da dor e do limite do movimento para o lado, tanto na abertura lateral, quanto no chute lateral alto.

Se a parte de fora dos seus quadris doem quando você dá chutes altos laterais, então você precisa aprender a inclinar a pélvis no momento do chute. A mesma inclinação para frente da pélvis que ajuda a fazer a abertura lateral lhe permite levantar a perna mais alto para o lado, pois a razão da dor e a limitação no movimento para o lado é a mesma tanto nos chutes laterais quanto na abertura lateral. No próximo artigo você aprenderá a testar se suas juntas e os músculos de suas coxas e quadris lhe permitem fazer uma abertura frontal.

Como saber se você tem potencial para fazer uma abertura total

Posted: 29.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Incompreensões sobre alongamento e flexibilidade e o método de testar seu potencial para fazer uma abertura lateral

Por Thomas Kurz
Tradução de Glauber Ataide


Este é o primeiro artigo de minha coluna sobre treinamento que apareceu em março de 1999 na edição da revista Taekwondo Times.

Minha área de expertise é o condicionamento para esportes e artes marciais, mas eu sou mais conhecido como autor do livro Stretching Scientifically: A Guide to Flexibility Training e do vídeo Secrets of Stretching.

Apesar desta coluna ter o nome de Stretch Yourself ("Alonge-se"), ela irá lidar com quase todos os aspectos do treino físico, já que todos estão relacionados e não devem ser tratados separadamente.

Darei aos leitores informações que eles podem colocar em prática imediatamente e experimentar seus benefícios de forma muito rápida também. Desfarei, assim, algumas incompreensões sobre métodos de exercícios e de treinamentos, entre as quais:
  •  Que a maioria das pessoas não pode fazer abertura lateral por causa da estrutura de suas juntas e da extensão (tamanho) de seus ligamentos;
  •  Que demora muito tempo para alcançar uma grande flexibilidade;
  •  Que o treino de força limita a flexibilidade e a velocidade;
  •  Que o alongamento estático, como tentar fazer aberturas laterais, deve ser feito durante o aquecimento para melhorar a amplitude de movimento e evitar lesões;
  •  Que o alongamento evita lesões.

Há outras incompreensões que irei abordar à medida que elas surgirem ao discutir questões específicas, e também ao responder às questões dos leitores.

Neste artigo irei abordar a primeira incompreensão: que a maioria das pessoas não consegue fazer aberturas devido à estrutura das juntas dos quadris e ao tamanho dos ligamentos das juntas dos quadris.

Há alguns testes simples para mostrar que, para a grande maioria das pessoas, a estrutura das juntas e o tamanho dos ligamentos não são um obstáculo para fazer abertura. Você pode fazer este teste para verificar se você tem potencial para fazer aberturas lateral e frontal antes de iniciar seu programa de alongamento. (Sim, há pessoas que não podem fazer aberturas laterais por causa de uma deformidade da junta do quadril chamada coxa vara.)

Aqui está o teste para a abertura lateral: fique de pé ao lado de uma cadeira ou mesa e coloque sua perna sobre ela como mostrado abaixo. Certifique-se que tanto o seu quadril quanto sua perna elevada estão ambos alinhados. 


Agora repita este teste com a outra perna.

Se você acha que o tamanho dos seus músculos e a estrutura de seu quadril não te permitem fazer abertura lateral, faça este teste... a perna repousando na cadeira está na posição que estaria em uma abertura lateral.

Agora, o que você fez? Você fez uma "meia abertura lateral" com cada uma das pernas!

Você provou a si mesmo que ambas as juntas do seu quadril têm toda a mobilidade (amplitude de movimento) requerida para uma abertura lateral completa!

Você também provou que os músculos de cada uma das suas pernas já são longos o suficiente para uma abertura lateral. Você sabe que nenhum músculo ou ligamento vai do lado interior de uma coxa à outra (ou, se você não sabe, pergunte ao seu médico). Então, o que te impede de fazer uma abertura lateral total com ambas as pernas esticadas ao mesmo tempo? Seu sistema nervoso, isso é o que te impede!

Eu não vou te aborrecer aqui explicando como isso acontece. O importante é que com o método correto de alongamento você irá ensinar ao seu sistema nervoso a te deixar fazer aberturas laterais a qualquer hora, sem aquecimento.

O método correto trabalha com o seu sistema nervoso e  te permite fazer aberturas em questão de meses, algumas vezes até mesmo em semanas. Outras formas de alongar demoram mais tempo e trazem piores resultados, pois trabalham contra o seu sistema nervoso.

Eu ressalto um método em oposição a simples alongamentos. Você pode conhecer muitos alongamentos, mas não são apenas alongamentos que fazem a diferença em flexibilidade. O que realmente faz a diferença é quando e qual alongamento ou exercício você faz durante seu treino.

Muitos adultos, que podem fazer o teste da abertura lateral com facilidade, têm grande dificuldade, no entanto, de fazer a abertura lateral (mas não necessariamente com a abertura frontal) devido a um problema na parte exterior de seus quadris. Eles sentem que há um "limite", acompanhado por uma dor na parte exterior do quadril ou na região superior da coxa que os impede de abrir suas pernas o suficiente para fazer uma abertura total. No próximo artigo eu direi o que fazer quanto a isso.

Minha lista de filmes de Taekwondo

Posted: 28.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Esta não é uma lista dos melhores filmes sobre Taekwondo que encontrei, mas sim uma lista de todos os filmes que já assisti sobre esta arte marcial. Alguns são razoáveis, outros não. A compilação não leva em conta a qualidade, mas apenas a presença do Taekwondo nas obras. À medida que descobrir\assistir outros filmes, vou acrescentando a esta postagem. Caso você tenha alguma sugestão, deixe nos comentários.

Best of the Best (1989)
Diretor: Bob Radler
País: EUA
Sinopse: Este é, sem dúvida, o meu preferido desta lista, e o considero um bom filme. Em português, ele recebeu o título nada a ver de "Operação Kickbox", mesmo tratando de uma competição internacional de Taekwondo - coisas sem sentido que as traduções\dublagens fazem por interesses comerciais. A trama gira em torno do confronto entre as seleções nacionais de Taekwondo dos EUA e da Coreia do Sul, e grande parte do filme mostra a escolha dos membros, seu treinamento e diversas subtramas envolvendo conflitos familiares e morais. Cinco jovens são selecionados como membros da seleção nacional dos EUA. Cada um deles tem sua própria razão para lutar. No entanto, eles logo descobrem que para funcionar como um time, eles precisam deixar de lado suas diferenças e aprender a depender um do outro. Juntos eles entram em um exaustivo período de treinamento que coloca em prova suas habilidades físicas e mentais. Depois de três meses de duros testes e conflitos pessoais, é hora de enfrentar a temível equipe nacional da Coreia do Sul. 

The Kick (2011)
Diretor: Prachya Pinkaew
País: Tailândia
Sinopse: O filme acompanha a trajetória de uma família praticante de Taekwondo que emigra para a Tailândia. Depois que um deles evita o roubo de um artefato tailandês inestimável, a família se torna herói nacional - e também alvo de vingança da gangue cujo roubo foi impedido. Para proteger o menino da família, eles são enviados para um esconderijo, mas são logo encontrados. Quando feitos reféns, um dos filhos não irá se deter por nada para salvar sua pele, e juntos eles irão tomar de volta o que lhes pertence.
Spin Kick (Dolryeochagi) (2004)
Diretor: Sang-guk Nam
País: Coreia do Sul
Sinopse: O instituto Manseh já foi famoso por sua equipe de Taekwondo, mas esses dias ficaram no passado. Agora, a equipe é uma sombra do que foi, com um único integrante e sem treinador, depois que o anterior deixou a escola levando consigo os melhores atletas que ainda restavam. Por outro lado, Yong-gaek e seu amigo Min-kyu são dois jovens especialistas em causar problemas e são detidos por má conduta. Como resultado, eles terão duas opções: ou ficar presos ou se juntar à equipe de Manseh como parte de sua pena para reintegração social. Poderão eles recuperar a tradição do instituto e a si mesmos?
When Taekwondo Strikes (Sting Of The Dragon Masters) (1973)
Diretor: Feng Huang
País: Hong Kong
Sinopse: Coreia, 1934. Durante a ocupação japonesa, há uma guerra aberta entre escolas rivais de artes marciais. Há uma luta no mercado da cidade, e três estudantes chineses não podem suportar as maneiras injustas dos estudantes que tomam o lado dos invasores quando eles atacam em bando um dos homens que estavam lutando. Entre os três, eles mandam os agressores embora. A retaliação é pesada: sua escola é destruída e eles são banidos. Eles retornam para a China e abrem sua própria escola e partem para visitas amistosas às outras escolas de artes marciais, apenas para descobrir que todos na vizinhança já estão dominados pelos japoneses. Eles ainda precisam vencer muitas lutas de kung fu antes de serem capazes de estabelecer a paz. A obra tem a participação da legendária superstar das artes marciais Angela Mao. Juntos, todos utilizam estilos como o Hapkido e o Taekwondo contra seus inimigos.

The foot fist way ("O caminho dos pés e das mãos") (2006)
Diretor: Jody Hill
País: EUA
Sinopse: Fred Simmons (Danny McBride) é um faixa preta 4º Dan de Taekwondo que tem sua própria academia em uma pequena cidade da Carolina do Norte. Fã do ator de filmes de ação de segunda categoria "Chuck 'The Truck'", ele perde sua confiança quando descobre que sua mulher o traiu, e assim passa por vários conflitos que ele tenta superar através dos cinco princípios do Taekwondo: cortesia, integridade, perseverança, autocontrole e espírito indomável. É um filme de produção barata.
Miami Connection (1987)
Diretor: Richard Park\Y.K. Kim
País: EUA
Sinopse: O ano é 1987. A banda de rock Dragon Sound é toda formada por faixas pretas em Taekwondo, e acaba se vendo envolvida na luta contra o tráfico de drogas e um bando de ninjas na cidade de Miami.

A história da própria obra é interessante: ela teve uma recepção ruim à época de lançamento, foi esquecida por décadas e foi redescoberta em 2012, tendo se tornado agora uma espécie de filme cult. É um típico filme B dos anos 1980, com atuações ruins, cenas de ação sofríveis e músicas que chegam a ser divertidas.

Clementine (Desafio Final [Brasil] \ Taekwondo: Pela honra [Portugal]) (2004)
Diretor: Kim Du-yeong
País: EUA\Coreia do Sul
Sinopse: O título deste filme faz alusão à canção folclórica Clementine, ("Oh querida, oh querida, oh querida Clementina), a qual conta uma triste história de um pai que perde sua filha. Grande parte desta obra gira em torno do drama familiar de Kim (Jun Lee), um campeão de Taekwondo que decide desistir de sua carreira esportiva para conseguir ter tempo para cuidar de sua filha. Mas quando um chefão das apostas esportivas sequestra a garota para forçar Kim a não desistir da carreira, o campeão concorda em participar de uma luta em troca da liberdade da filha. O problema é que seu oponente é Jack Miller (Steven Seagal), um lutador conhecido por nunca ter perdido uma luta. Este filme não tem tanta ação ou cenas de luta quanto eu esperava, mas é um filme razoável, considerando alguns outros que temos nesta lista.

Alongamentos corretos para chutes altos sem aquecimento prévio no Taekwondo

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Thomaz Kurz é faixa preta em Taekwondo, formado em Educação Física em Varsóvia, na Polônia, e autor de diversos livros e vídeos sobre alongamento. Suas obras, voltadas para praticantes de artes marciais, fornecem valiosas informações, técnicas e exercícios específicos para os tipos de movimentos exigidos para quem precisa tanto de força quanto de flexibilidade nos chutes. Na foto ao lado, é possível vê-lo com cerca de 40 anos de idade, chutando alto e sem  aquecimento prévio. Kurz publicou diversos artigos sobre o tema na revista Taekwondo Times, e compartilho abaixo a tradução que realizei de um deles.

Alongamentos corretos para chutes altos sem aquecimento

Por Thomas Kurz

Esta é a quarta parte da minha coluna sobre treinamento que apareceu na edição de maio de 1999 da revista Taekwondo Times.

Neste artigo você aprenderá sobre o método de desenvolver flexibilidade dinâmica de modo que você possa chutar alto a qualquer momento, sem nenhum tipo de aquecimento prévio.

Que diferença faz quão bem você pode chutar se você só pode chutar bem depois de aquecer?

Seus chutes, assim como seus socos, devem ser suas armas - sempre acessíveis e prontos. Você não andaria com uma arma descarregada, andaria? Você não esperaria ter tempo suficiente para colocar as balas nela ao enfrentar um oponente.

E mesmo assim... quantas pessoas praticam chutes, e especialmente chutes altos, sem poder utilizá-los imediatamente, sem antes se aquecer e se alongar?

Se você quer aumentar a altura de seus chutes e alcançar esta altura sem aquecimento, você precisa desenvolver o tipo correto de flexibilidade - a flexibilidade dinâmica. Flexibilidade dinâmica é a habilidade de fazer movimentos dinâmicos dentro de uma amplitude de movimentos nas articulações. Chutes são exemplos de movimentos dinâmicos.

Alongamentos dinâmicos para chutadores (kickers) consiste simplesmente em levantar as pernas em todas as direções. Primeiro desenvolva a habilidade de mover seus membros com velocidade moderada dentro de uma gama de movimentos. Você deve começar com uma baixa extensão (altura) para evitar a contusão de músculos subitamente contraídos ou esticados. Não "jogue" os seus membros; ao invés disso, "conduza-os" ou "levante-os", controlando o movimento por todo o trajeto. Então, depois de ter alcançado quase o seu limite de movimento, você pode aumentar a velocidade de forma que os últimos centímetros de sua trajetória serão menos controlados, mas o alongamento não será repentino. Levante as pernas para a frente, para trás e para os lados. Faça 12 repetições por vez e repita quantas vezes precisar até que você sinta ter alcançado seu atual limite de flexibilidade.


a) levantando a perna para a frente; b) levantando a perna para trás; c) levantando a perna para o lado

Se você depende de chutes altos como técnicas de combate e quer ser capaz de aplicá-los a qualquer hora e sem aquecimento, você deve fazer alongamentos dinâmicos duas vezes ao dia. Pesquisas mostram a efetividade do alongamento dinâmico duas vezes ao dia (Matveev, 1977). Primeiro gaste alguns minutos na manhã (antes de tomar café) no alongamento dinâmico de suas pernas e então, mais tarde durante o dia, faça os alongamentos dinâmicos novamente. Nos dias que tiver treino, faça estes alongamentos dinâmicos no aquecimento antes de chutar. Começando devagar, você deve gradualmente levantar suas pernas mais alto, e então você deve aumentar a velocidade de seus movimentos. Fazer os próprios chutes de combate neste alongamento da manhã não é necessário para ser capaz de fazê-los mais tarde sem aquecimento.

Segundo Matveev (1977), de 8 a 10 semanas são suficientes para desenvolver a máxima flexibilidade dinâmica.

Sim, você pode ter grande flexibilidade dinâmica em questão de poucas semanas e então exibi-la sem aquecimento. Tudo que isso requer é o método correto de alongamento. Passar vários meses desenvolvendo sua flexibilidade e não ser capaz de utilizá-la sem aquecimento indica ou que o método de alongamento que você usa é incorreto, ou que você está cronicamente fatigado, ou ambos.

Há várias explicações para não conseguir fazer progresso e estar fatigado:

1) Métodos incorretos ou ensino inapropriado, que podem resultar em muitas repetições de um dado exercício e fatiga local crônica;

2) Cargas de treino muito pesadas sem o descanso suficiente. Se você começar a treinar ainda fatigado ou mesmo com dores depois do treino anterior, você está pedindo para se machucar, ou no mínimo você entrava seu progresso futuro.

3) Sequência errada de esforços. Se você usa a sequência errada de esforços (exercícios) em um treino ou em uma série de treinos consecutivos, isso pode dobrar ou triplicar seu tempo de recuperação (Kurz, 1994, p. 64).

Mas e todos aqueles alongamentos estáticos - aberturas de pernas, por exemplo - que tantas pessoas tentam antes de chutar?

Não! Nunca faça alongamentos estáticos antes de alongamentos dinâmicos, antes de chutes ou de quaisquer outros movimentos dinâmicos. Por vários segundos ou mesmo minutos depois de qualquer tipo de alongamento estático, você não pode exibir sua máxima agilidade ou velocidade porque seus músculos estão menos responsivos a estímulos - sua coordenação está "off". Alongamentos estáticos reduzem a produção de força dos músculos alongados. Isso foi demonstrado ao sujeitar músculos de da panturrilha a vários alongamentos de 30 segundos e medindo sua força logo após (Rosenbaum e Hennig, 1995). A produção máxima de força é debilitada por vários minutos depois de um alongamento estático muito "puxado" (Kokkonen, Nelson e Cornwell, 1998). Se você tentar fazer um movimento dinâmico muito rápido logo após um alongamento estático, você pode machucar o músculo alongado. Eu explico esta e outras razões em meu livro Stretching scientifically ("Alongando cientificamente", em tradução livre) (Kurz, 1994).

Ao escolher entre alongamentos, você deve examinar suas necessidades e as exigências da sua atividade. Por exemplo, se você é um chutador (kicker), você precisa principalmente de flexibilidade dinâmica de seus quadris. Para aumentar a amplitude de seus movimentos, você precisa fazer levantamento dinâmico de pernas em todas as direções.

O princípio da especificidade afirma: a flexibilidade é específica para a velocidade do movimento. A flexibilidade é também específica em relação à posição, então os exercícios estáticos ou alongamentos, como aberturas, não são muito úteis se você quer chutar mais alto (um tipo de flexibilidade dinâmica). De acordo com Logan e McKinney (1970), o princípio de adaptação específica para impor exigências no caso da flexibilidade significa que eventualmente, ou ao fim da primeira sequência de alongamentos ou das outras sequências, você deve se alongar em uma velocidade não menor que 75% da velocidade máxima utilizada na sua habilidade real, como um chute, por exemplo.

É comum vermos em academias, dojangs e dojos, alguém de pé e segurando sua perna no alto. Ficar em pé desta forma, enquanto requer e desenvolve equilíbrio e força estáticos, não está desenvolvendo flexibilidade dinâmica e nem força dinâmica. Isso está desenvolvendo uma flexibilidade ativa estática requerida para ginastas, mas não algo que chutadores (kickers) precisam. Tal ato de segurar a perna requer uma forte tensão dos músculos de um lado do tronco quando a parte inferior das costas é torcida para este lado e puxada para frente pelo músculo psoas do mesmo lado. Isso, se feito por alguém com força insuficiente na parte inferior ou com algum problema nas costas, pode causar tensão nas costas ou inflamação de disco intervertebral.

No que diz respeito à potência, a força específica para um chutador (kicker) é a força que lhe permite chutar com energia, não ficar segurando uma perna! A força específica para chutar é desenvolvida chutando sacos de pancadas, camadas de esponja, chutando com cordas elásticas presas aos pés e fazendo outros exercícios dinâmicos similares a chutar. A força, assim como a flexibilidade, é específica à velocidade, ao ângulo e à amplitude do movimento. Isso é explicado por McArdle, Katch e Katch (1991). Você não pode aprender habilidade dinâmicas utilizando exercícios estáticos, e vice-versa.

Há mais do que apenas o tipo correto de alongamento para dar chutes altos sem nenhum aquecimento anterior. Na próxima coluna você aprenderá os "pequenos" detalhes de técnicas de chutes que lhe permitem chutar alto e com potência sem aquecer.

Referências

Kokkonen, J., Nelson, A. G., and A. Cornwell. 1998. Acute muscle stretching inhibits maximal strength performance. Research Quarterly for Exercise and Sport vol 69, no 4, pp. 411-415

Kurz, T. 1994. Stretching Scientifically: A Guide to Flexibility Training. Island Pond, VT: Stadion Publishing Co. Inc.

Logan, G. A. and W. C. McKinney. 1970 Kinesiology. Dubuque, IA: Wm. C. Brown Company Publishers.

Matveev, L. P. 1977. Osnovy sportivnoy trenirovki. Moskva: Fizkultura i Sport.

McArdle, W. D., Katch, F. I., and V. L. Katch. 1991. Exercise Physiology: Energy, Nutrition, and Human Performance. Philadelphia, PA: Lea & Febiger.

Rosenbaum, D. and E. M. Hennig. 1995. The influence of stretching and warm-up exercises on Achilles tendon reflex activity. Journal of Sport Sciences vol 13, no 6, pp 481-490.

Michel Thomas vs Paul Noble - a very brief review

Posted: 22.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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In this video I would like to share with you my views on two very interesting language learning methods: Michel Thomas and Paul Noble.


Problemas do conceito de "patriarcado" no feminismo marxista

Posted: 21.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A aliança entre o feminismo e o pensamento de esquerda, especialmente o marxista, não é de forma alguma natural. O feminismo, segundo a socióloga inglesa Michèle Barrett, é um movimento político cujas origens remontam ao feminismo de direitos iguais da tradição liberal burguesa e ao feminismo radical não-socialista. A relação entre o feminismo marxista e os de outras orientações teóricas apresenta, por isso, inúmeras dificuldades de síntese, residindo uma das principais delas no conceito de patriarcado.

Em Women’s oppression today: problems in marxist feminist analysis, Michèle Barrett afirma que o termo patriarcado foi tomado pelo sociólogo Max Weber para descrever uma forma particular de organização familiar na qual o pai dominava os outros membros de uma extensa rede de parentesco e controlava a produção econômica da família. Sua ressonância no movimento feminista repousa, no entanto, na teoria desenvolvida pelas primeiras feministas radicais e principalmente por Kate Millet, de que o patriarcado seria uma categoria muito mais abrangente de dominação masculina em geral.

A posição de Millet, segundo Barrett, implica que as divisões de classe – como aquelas desenvolvidas pelo marxismo entre burguesia e proletariado – são relevantes apenas para os homens. Ela nega que existam diferenças significativas entre mulheres. Seu projeto é o de estabelecer um sistema fundamental de dominação – o patriarcado – que seja analiticamente independente do modo de produção capitalista ou de qualquer outro.

A teoria de Millet se aproxima da posição de Shulamith Firestone no sentido de que concede não apenas independência analítica à dominação masculina, mas também primazia analítica. O objetivo de Firestone, afirma Barrett, é substituir as classes sociais pelo sexo como motor da história. Firestone inclusive parafraseia Engels da seguinte maneira: “toda a história... é a história da luta de classes. Estas classes da sociedade em conflito são sempre o produto dos modos de organização da unidade da família biológica para a reprodução da espécie [...] A organização sexual-reprodutiva da sociedade sempre fornece a base real, a partir da qual podemos explicar toda a superestrutura das instituições econômicas, jurídicas e políticas, assim como das religiosas, filosóficas e outras ideias de um determinado período histórico.”

Barrett afirma que isso levanta um problema encontrado com frequência no uso do termo “patriarcado” por estas primeiras feministas radicais: elas não apenas invocam uma categoria aparentemente universal e trans-histórica de dominação masculina, nos deixando com pouca esperança de mudança, como também, frequentemente, baseiam esta dominação em uma suposta lógica de reprodução biológica. Para Michèle Barrett, a posição destas primeiras feministas radicais é reacionária. Em termos filosóficos elas são reducionistas, no sentido de que subsumem complexos fenômenos construídos social e historicamente sob a simples categoria de diferença biológica. Se certas formas de relações sociais são “naturalmente” dadas, há pouco que podemos fazer para alterá-as.

Uma tentativa de articular o conceito de patriarcado de um ponto de relações sociais, e não biológicas, foi realizada por Christine Delphy e outras autoras. Delphy utiliza o exemplo de uma mulher divorciada de um homem burguês para ilustrar um sistema de exploração patriarcal que penetra além das divisões de classes: “apesar de o casamento com um homem da classe capitalista elevar o padrão de vida de uma mulher, este casamento não a torna um membro daquela classe. Ela própria não detém os meios de produção. [...] Na ampla maioria dos casos, mulheres de homens burgueses cujos casamentos terminam devem ganhar sua própria vida como mulheres assalariadas...” Delphy argumenta que a posição de classe das mulheres deve ser entendida em termos da instituição do casamento, o qual ela entende como um contrato de trabalho. Seu argumento, portanto, é o de que a base material da opressão da mulher reside nas relações de produção patriarcais, e não capitalistas. A dificuldade aqui, segundo Michèle Barrett, é que à categoria de patriarcado é concedida uma independência analítica em face ao modo de produção capitalista, mas ela não explica qual a relação entre ambos.

Um problema geral com o conceito de patriarcado, segundo Barrett, é que ele não é apenas resistente à investigação dentro de um particular modo de produção, mas é também sugestivo de uma opressão universal e trans-histórica. Assim, usar o conceito significa frequentemente invocar uma dominação masculina geral sem ser capaz de especificar seus limites históricos, alterações ou diferenças. Para uma abordagem feminista marxista, cuja análise deve se basear em análises históricas, seu uso frequentemente apresentará problemas específicos.

Algumas tentativas contemporâneas tentam retratar, de forma geral, o próprio capitalismo como “patriarcado”, mas estas posições apresentam dois problemas principais. O primeiro é que o patriarcado é colocado como um sistema de dominação completamente independente da organização das relações capitalistas, e, portanto, as análises caem em um modo universalista e trans-histórico que pode evocar um biologismo. Quando são feitas tentativas de constituir o patriarcado como um sistema de dominação masculina em relação ao modo de produção capitalista, estas frequentemente naufragam na inflexibilidade e nas exigências de autonomia de que o conceito é suscetível. Em segundo lugar, o conceito de patriarcado, como frequentemente apresentado, revela uma confusão fundamental entre o patriarcado como o domínio do pai, e o patriarcado como a dominação das mulheres pelos homens. Ambos os problemas podem ser vistos em tentativas de usar o conceito de patriarcado em conjunto com uma análise marxista.

Barrett analisa também a posição de Zillah Einsenstein, que define o patriarcado como precedendo o capitalismo, e existindo hoje no “poder do masculino através de papéis sexuais” e como institucionalizado na família. Para a socióloga inglesa, o que não fica claro, no entanto, é em que medida o patriarcado, definido desta maneira, se constitui como um sistema autônomo, já que Einsenstein se refere a ele apenas em relação às funções que ele desempenha para o capital. “O capitalismo usa o patriarcado e o patriarcado é definido pelas necessidades do capital”. Tal afirmação dificilmente pode coexistir com a reivindicação de que o capitalismo seja um patriarcado. O uso que Zillah faz do termo, afirma Barrett, não resolve o problema da independência analítica do “patriarcado” em relação ao capitalismo: a análise vacila entre a afirmação do patriarcado como um sistema de poder masculino externo ao capitalismo e o argumento de que a organização de relações patriarcais são funcionais para o capitalismo.

Roisin McDonough e Rachel Harrison, por sua vez, tentam utilizar o termo patriarcado em um contexto materialista. Ambas consideram o patriarcado como requerendo uma dupla definição: primeiro, do controle da fertilidade e da sexualidade da mulher no casamento monogâmico, e segundo, na subordinação econômica da mulher através da divisão sexual do trabalho (e da propriedade). Elas argumentam que a família patriarcal enquanto tal não existe mais, mas que o patriarcado pode ser dito como existente na operação destes dois processos. Sua tese central é a de que o patriarcado, enquanto conceito, pode ser historicizado através do argumento de que, no capitalismo, as relações patriarcais assumem a forma ditada pelas relações capitalistas de produção. Barrett resume esta formulação como o argumento de que a opressão das mulheres no capitalismo apresenta diferentes contradições para as mulheres dependendo de sua classe social. Mas a definição de classe social destas autoras é deficiente, afirma Barrett, não tendo bases nem marxistas e nem sociológicas, pois elas afirmam que “uma mulher herda a posição de classe do seu marido, mas não a relação equivalente aos meios de produção”. O que não fica claro para Barrett é o que estas autoras estão querendo dizer com patriarcado, pois se as relações patriarcais assumem a forma de relações de classes no capitalismo, mesmo assim elas não resolvem a questão da efetividade do patriarcado como determinante da opressão da mulher neste modo de produção.

Este apanhado histórico efetuado por Barret tem pelo menos dois objetivos: 1) mostrar as vicissitudes a que o conceito de patriarcado foi submetido por diferentes autoras de diferentes linhas de pensamento e 2) apontar os problemas de cada definição quando confrontadas à luz do pensamento marxista. Estes problemas, na opinião de Barret, são sérios, o que significa dizer que não podem ser considerados como meros caprichos conceituais sem incidência na conformação e na organização de um movimento feminista marxista.

O conceito de patriarcado, um dos mais importantes para o feminismo, é exemplo de que não existe uma aliança natural entre este e o marxismo. Embora o termo "patriarcado" possa descrever bem algumas formas de sociedade nas quais o poder econômico e social é investido no pai enquanto tal, ele não é necessariamente um conceito útil para explorar a opressão das mulheres em sociedades capitalistas, e as dificuldades dos trabalhos feministas marxistas sobre patriarcado e feminismo ilustram este ponto. 

Para Barrett, parece admissível referir-se a ideologia patriarcal, descrevendo aspectos específicos das relações masculino-feminino no capitalismo, mas enquanto substantivo, o termo “patriarcado” apresenta inúmeras dificuldades para uma análise que tente relacionar a opressão da mulher às relações de produção no capitalismo.

Referência

BARRETT, Michèle. Women's oppression today: problems in marxist feminist analysis. 5 ed. London: Verso Books, 1986.

A pseudo-atividade política em "Resignation", de Theodor Adorno

Posted: 20.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O conceito de pseudo-atividade foi inicialmente utilizado por Adorno para se referir a atividades que, embora possuam uma aparência de autonomia, são orientadas, direcionadas, ditadas, induzidas pela lógica de subordinação de todos os aspectos da existência humana ao capital. As pseudo-atividades dão ao indivíduo uma sensação de autenticidade quando, na verdade, ele está apenas se adequando a um esquema já pré-estabelecido. Um exemplo de pseudo-atividade seriam as atividades de tempo livre ou de férias oferecidas por empresas de turismo. O mundo administrado tem a tendência de eliminar toda espontaneidade, de canalizá-la em pseudo-atividades. Em Resignation, Adorno irá argumentar que também ações políticas podem se degenerar (absinken) em pseudo-atividades, em teatro.

Resignation, de Adorno, é o último texto do filósofo alemão, no qual ele retoma – agora no campo da política - o conceito de pseudo-atividade. Este breve discurso, originalmente proferido em um programa de rádio, tem como pano de fundo uma questão recorrente em sua obra: a relação entre teoria e prática. Respondendo à acusação de “resignação” lançada contra os integrantes da escola de Frankfurt, Adorno explica por que nunca tomou parte em atividades políticas que ele via apenas como pseudo-atividades. Segundo esta crítica, os pensadores da escola de Frankfurt desenvolveram, de fato, uma teoria crítica da sociedade, mas nunca tiraram dela suas consequências práticas; além de nunca terem fornecido um programa de ação, também nunca apoiavam ações influenciadas pela chamada Teoria Crítica. A distância da práxis, segundo esta crítica, é sempre mal vista, e deve-se desconfiar de quem não queira se sujar “metendo a mão na massa”, de quem duvida da possiblidade de mudanças na sociedade. Quem não toma parte em ações espetaculares, violentas, e nem as apoia, este “já se resignou”.

Adorno observa que a tão falada unidade de teoria e práxis tem uma tendência de sobrepor a segunda à primeira. Esta tendência encontra clara expressão nos movimentos sociais e políticos do pós-guerra, e podemos observá-la sobretudo neste início de século. Embora a relevância da teoria seja afirmada em palavras (“sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”), ela é relegada a segundo plano como improdutiva e desnecessária. Quando muito, a “teoria” se resume a tentativas de apropriação de obras de divulgação\vulgarização do marxismo, considerando que o edifício teórico já está acabado, finalizado, restando agora apenas a “aplicação” da teoria sobre a realidade. Afirma-se a relevância da teoria em palavras, mas a produção teórica é sufocada, atropelada, asfixiada pelo volume de atividades práticas da militância. Aqueles que enfatizam a práxis tendem a ser “leves” na teoria, além de aplicar limitações arbitrárias ao pensamento, o que se configura como uma forma de repressão.

Muitos movimentos denunciam, pelo contrário, o pensamento como uma forma de opressão, como se a práxis não estivesse muito mais intimamente ligada à opressão do que o pensamento. Para Adorno, a intolerância repressiva contra o pensamento que não está diretamente ligado a uma aplicação prática é fundada sobre a angústia (Angst). Neste ponto Adorno faz referência a um antigo mecanismo que os iluministas já conheciam no século XVIII, e que agora se reapresenta inalterado: o sofrimento (Leiden) causado por uma situação negativa, como por uma realidade bloqueada, por exemplo, se transforma em raiva contra aqueles que a exprimem. Isso é, os teóricos, ao expressarem tais situações, tornam-se objetos da raiva daqueles que sofrem com elas. Isso explica, em parte, o ódio aos intelectuais. Estes, ao darem expressão consciente ao que é apenas percebido ou sentido com medo ou angústia, tornam-se alvo de seu ódio por trazerem este objeto a nível de consciência. Ocorre aqui como que um processo de transformação do afeto e deslocamento do seu objeto, um mecanismo comum na vida psíquica descrito por Freud. Adorno afirma, valendo-se de algumas palavras de Habermas, que o pensamento, que é nele mesmo esclarecimento consciente, ameaça desenfeitiçar a pseudo-realidade na qual o ativismo se move.

Quem está preso busca desesperadamente uma saída, e em tais situações, ou não se pensa mais, ou pensa-se apenas sob falsos pressupostos. O hiperativismo contemporâneo se desenvolve tendo como pano de fundo um longo período histórico sem revoluções proletárias, sem saídas visíveis num horizonte próximo. É neste contexto de desespero que a práxis absolutizada ganha terreno e sufoca o pensamento. “É preciso agir, desenvolver lutas”, afirma-se. Para os pseudo-ativistas, apenas com o aumento quantitativo das “lutas” é que se chegará a uma transformação qualitativa da sociedade, encobrindo, assim, um pensamento mecanicista com um manto de “lei dialética”. Parte-se para a ação, segundo Adorno, justamente pela impossibilidade de se agir no presente momento. Este ativismo é tolerado, contudo, apenas por ser considerado pseudo-realidade.

Na definição de Adorno, “a pseudo-atividade é, em geral, a tentativa de em meio a uma sociedade cada vez mais mediatizada e enrijecida, encontrar enclaves de imediaticidade. Com isso racionaliza-se que pequenas modificações são etapas do longo caminho de transformação do todo”. O modelo fatal de pseudo-atividade é o “Do-it-yourself” (“Mach es selber”): aquelas atividades que há muito tempo podem ser feitas de melhor forma com os meios de produção industrial, mas que são feitas pelo indivíduo não-livre e paralisado em sua espontaneidade apenas para despertar nele a sensação de que dependeriam de si. Um exemplo do non-sense deste do-it-yourself é o indivíduo que fabrica ou executa reparos considerados supérfluos considerando-se a tecnologia atual existente. No plano político a pseudo-atividade é patente quando os próprios produtos da indústria cultural se encarregam em dar publicidade a pautas anteriormente consideradas subversivas, embora jamais engendrassem nenhuma contradição antagônica ou estrutural com o sistema capitalista. Isso é, a indústria cultural absorve e integra ao sistema aquilo que acreditava-se anteriormente capaz de subverte-lo.

A pseudo-atividade rouba a autonomia ao indivíduo, de modo que o ego deve se abolir para receber a graça de ser escolhido pelo coletivo. Tacitamente um imperativo categórico kantiano se ergue: você deve se submeter. O sentimento de uma nova segurança é comprada com o sacrifício do pensamento autônomo. Deve-se acreditar que o coletivo sempre acerta, e que errar coletivamente é melhor que acertar individualmente.

Tal processo é facilitado aos indivíduos através de sua capitulação diante do coletivo com o qual ele se identifica: a ele é poupado reconhecer sua impotência. Este é o mesmo mecanismo que Adorno identificou também no movimento fascista. Através da identificação do indivíduo com um coletivo maior que ele próprio, ele se sente integrante de um ser mais elevado e amplo, que lhe acrescenta todos os atributos que lhe faltam, curando-lhe de sua impotência política. Os poucos se tornam muitos. Invertendo a acusação lançada contra a escola de Frankfurt, Adorno afirma que é este ato, e não o pensamento resoluto, que é resignativo.

O crescimento do ativismo virtual, por exemplo, é uma forma de pseudo-atividade, diretamente ligada a fantasias conservadoras de autossuficiência e independência da política. Através de nossa participação política simbólica em petições digitais somos levados a ignorar nossa própria impotência. Diversas outras formas de ativismo, ligadas a vários movimentos sociais, também se caracterizam como pseudo-atividade. A pseudo-atividade é o lado subjetivo da pseudo-realidade; é uma ação substituta, se elevando a fim em si mesma. A pseudo-atividade política cria, ademais, uma pseudo-realidade de conquistas políticas. Toda mobilização é vista como um “avanço”, como um “acúmulo de forças”, mesmo que não se saiba exatamente em que direção, ou mesmo que a realidade insista em desmenti-lo.

Uma saída pode ser encontrada, segundo Adorno, apenas pelo pensamento. Mas não naquele pensamento submetido ao que deve produzir e que não avança a discussão, e que inevitavelmente degenera em tática, pois o salto na prática não cura o pensamento de resignação. O pensar não é a reprodução intelectual do que já existe. Quando o pensamento é reduzido a mero instrumento do ativismo, ele se atrofia como toda razão instrumental. O momento utópico do pensamento é tanto mais forte quanto menos ele se deixa objetivar e, consequentemente, sabotar sua efetivação (Verwirklichung). O pensamento, além disso, tem o seu momento de universalidade: o que é pensado corretamente em algum lugar será, em algum outro lugar e por outra pessoa, pensado novamente.


Referências

Band 10: Kulturkritik und Gesellschaft I/II: Kritische Modelle 3. Digitale Bibliothek Band 97: Theodor W. Adorno: Gesammelte Schriften, S. 8724 (vgl. GS 10.2, S. 794)






A morte em Heidegger e a crítica de Sartre

Posted: 18.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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1     Introdução

A resposta à pergunta "o que você faria se este fosse o último dia de sua vida?" revela aquilo com o que mais nos importamos, como realmente queremos viver nossas vidas. O que fazer se as próximas vinte e quatro horas forem as últimas? Andar sem roupas pelas ruas? Dizer algumas verdades ao vizinho? Passar o tempo com a família? Estudar filosofia? (POLT, 1999, p. 86)

O indivíduo, ao viver cada dia como se fosse o último, não perderia tempo com gestos vazios, mas se concentraria em ser ele mesmo. A sensação de iminência da morte faz com que a vida corra diante dos olhos, momento no qual a história de cada um é revista como um todo, e suas vitórias e seus fracassos são contabilizados. Ao sentir a fragilidade da vida sentimos também seu significado, de modo que a morte faz com que cada um encare a si mesmo. A certeza da morte seria, por isso, libertadora, pois livra-nos das trivialidades da vida cotidiana (POLT, 1999, p. 86).

Imbricada a esta certeza da morte está a angústia, a qual possibilita uma resposta autêntica - chamada por Heidegger de Vorlaufen1 - à morte. Traduzida às vezes como "antecipação", Vorlaufen significa, literalmente, "correr antes", sendo "enfrentar", talvez, uma melhor tradução. A existência autêntica envolve encarar a mortalidade, não no sentido de se preocupar em quando o falecimento virá, mas antecipando a finitude de suas próprias possibilidades e escolhendo à luz desta finitude. Perceber que cada momento pode ser o último nos liberta das distrações e das trivialidades dos outros (POLT, 1999, p. 87).

Este Vorlaufen, no entanto, não é uma experiência possível, segundo Sartre. Em O ser e o nada, o existencialista francês afirmará que a morte é absurda, um incidente pertencente ao mundo exterior, não podendo ser incluída em nosso projeto de existência pessoal. A morte não é capaz de dar qualquer significado à própria vida, sendo, antes, uma total forma de alienação, ampliada pelo fato de que existe apenas na memória dos outros. (WERNECK, 2012, p. 1). Se a morte é uma limitação das possibilidades para Heidegger, Sartre localiza esta limitação na própria liberdade de escolha, na qual está contida sua finitude.

2     A morte em Heidegger

Heidegger introduz sua discussão acerca do tema da morte no contexto de uma reflexão sobre a totalidade do Dasein. Segundo Gorner (2007, p. 120), a analítica existencial de Heidegger tenta dar conta das estruturas básicas do ser do Dasein. Somos capazes, contudo, de apreender o todo do Dasein? Para Mulhall (2005, p. 122), qualquer tentativa filosófica de apreender o Dasein enquanto totalidade encontra o problema de o Dasein, enquanto existir, estar originalmente voltado ao próximo momento de sua existência, sendo, por isso, incompleto.

Polt (1999, p. 86) afirma que esta questão demanda analisar o que se quer dizer por "todo". Diferentes tipos de entidades têm diferentes formas de ser um todo e alcançar um fim. No caso do Dasein, ela não envolve nem a eliminação das possibilidades e nem sua realização, sendo uma certa maneira de possuir possibilidade nas quais estas possibilidades são limitadas. As possibilidades do Dasein são sempre limitadas pela possibilidade da impossibilidade de existir, e é isso que Heidegger chama de "morte"2.

Dizer, por exemplo, que alguém é um escultor, e nada mais, seria eliminar sua liberdade de escolher o que fazer de si mesmo (POLT, 1999, p. 86). Mesmo ao continuar a escolher ser um escultor, ele não é apenas um escultor, mas um escolhedor (chooser). Ao ser um escolhedor, ele parece não poder nunca ser apreendido como um todo, como algo acabado. Parece não ser possível identificar o que o Dasein é como um todo sem eliminar sua liberdade.

O Dasein sempre se projeta em possibilidades, em direção ao ainda-não-atual. Esta incompletude estrutural é sobrepujada apenas quando o Dasein se torna um não-Dasein. A situação parece contraditória: para que o Dasein seja completo, é preciso que ele não mais exista, mas ao não existir ele não pode se apreender como um todo (MULHALL, 2005, p. 122).

Na Divisão Um de Ser e Tempo, Heidegger chegou à caracterização do Dasein como Sorge (cuidado), no sentido de nos permitir apreender o ser do Dasein como um todo e, assim, fornecer uma estabilidade, mesmo que provisória, à sua analítica existencial. A discussão da morte, no entanto, representa um desafio aos resultados alcançados até este ponto da obra. A morte, ao levar a termo a existência humana, completa-a, mas ninguém tem experiência de sua própria morte (MULHALL, 2005, p. 122).

O Dasein pode sempre se referir à morte dos outros, mas isso não significa nem apreender suas vidas como totalidade, nem obter uma compreensão adequada do Ser do Dasein em sua completude. Para Mulhall (2005, p. 123), a relação que temos com os cadáveres mostraria isso: nos referimos a eles não apenas como matéria morta, mas como pessoas mortas. Os funerais, ritos e cultos religiosos que lhes prestamos é uma certa forma de estarmos com eles, mas são modos de nossa existência continuada, não da existência deles. Para que fosse possível apreender a vida da pessoa morta como uma totalidade deveríamos ser capazes de apreender o significado ontológico de sua morte para ela própria, pois é a totalidade de sua vida que está em questão. Nosso acesso à perda e ao sofrimento que o morrer desta pessoa significa para os outros não nos aproxima à perda-do-Ser que a própria pessoa sofreu, não nos revelando nada do que significa para a existência de um Dasein alcançar a completude ou a totalidade. A morte revela-se, portanto, insubstituível. Uma pessoa não pode representar outra em relação ao seu morrer e à sua morte. Minha morte é inevitavelmente minha (MULHALL, 2005, p. 123).

A morte para o Dasein não é um limite da mesma maneira que uma moldura é o limite de uma figura ou um meio-fio é o limite de uma rua. De acordo com a ilustração de Mulhall (2005, p. 123), a figura termina na moldura, mas não é aniquilada por ela da mesma forma que a morte aniquila o Dasein. O meio-fio, da mesma forma, marca o fim de um pavimento e o início de um novo ambiente no qual se pode adentrar ao sair da rua, enquanto que a morte do corpo não é outro modo de vida.

O verdadeiro significado da morte enquanto fim do Dasein, como sua completude ou totalização, depende do significado da existência do Dasein enquanto projeção. O Dasein tem uma vida a levar adiante, deve tomar decisões sobre quais possibilidades tornará atuais (reais) e quais não. Para entender a morte é preciso compreendê-la existencialmente, isso é, como uma possibilidade do Ser do Dasein. Como a morte, no entanto, não pode ser diretamente apreendida pelo Dasein, ela deve ser entendida não como uma atualidade, mas como uma possibilidade. Nossa relação com a morte deve ser repensada não como algo que se realiza quando morremos, mas como algo que realizamos durante nossas vidas. A morte é uma possibilidade distinta de todas as outras que temos, como fazer uma refeição, jogar futebol ou ler filosofia (MULHALL, 2005, p. 125). Nas palavras de Heidegger,

“A morte é a possibilidade da impossibilidade completa do Dasein. Assim, a morte se revela como a mais própria, não-relacional e inultrapassável possibilidade. Como tal, a morte é algo distintamente iminente.” (HEIDEGGER, 1977, 333)

A morte é sempre iminente - sempre paira sobre nós como algo que ainda não é. Ao contrário de outras possibilidades, no entanto, ela não pode ir além de estar diante de nós. Segundo Mulhall (2005, p. 125), uma tempestade ou a chegada de um amigo podem ser iminentes e, de fato, acontecerem. A morte, por sua vez, não pode se relacionar conosco de outra forma a não ser como uma possibilidade iminente, pois quando esta possibilidade se tornar real, necessariamente seremos não-mais-Dasein. Podemos nos comportar diante da morte apenas como uma possibilidade, a qual nos acompanha por toda a vida. Uma tempestade ou a chegada de um amigo, continua Mulhall (2005, p. 126), não é iminente a cada momento de nossa existência, mas não há nenhum momento sequer no qual a morte não seja possível, nenhum momento que não possa ser o último. A morte, portanto, é sempre e apenas uma possibilidade. Nossa predestinação (fatedness) a esta ameaça apenas iminente torna concreta a unidade de nossa existência como projeção, de estarmos sempre à frente de nós mesmos.


3     A crítica de Sartre a Heidegger

Segundo Dandyk (2015, p. 45), a crítica geral de Sartre a Heidegger pode ser mais bem visualizada no conceito de morte. A morte é, para Heidegger, determinante para a conversão da inautenticidade para a autenticidade. É a partir da intransferibilidade e da insubstitutibilidade da morte que se abre para o Dasein a sua singularidade (Einzigartigkeit), que se desvela o seu "ser-para-a-morte". A morte não é apenas o fim da vida, mas lhe dá, antes, seu sentido de singularidade (Einzigartigkeit) e finitude. Assim como o acorde final de uma melodia já se fez presente desde seu começo, também a morte está lá desde o início, como determinante de seu sentido.

Sartre contesta esta univocidade (Eindeutigkeit) que Heidegger atribui à morte em relação ao significado (Bedeutung) da vida. Não é apenas a morte que é intransferível e insubstituível. O amor, por exemplo, também o seria. Cada tipo de amor é individual, e dificilmente alguém contestaria que existe este amor individual. Por que seria necessário internalizar (verinnerlichen) a própria morte a fim de ser capaz deste amor individual?

Heidegger teria, além disso, negligenciado a possível absurdidade da morte (DANDYK, 2015, p. 46). De fato, posso esperar a morte no sentido de Heidegger, mas a questão é se esta morte de fato é a morte esperada por mim. Pode acontecer, por exemplo, que um condenado à morte pegue um resfriado e morra aguardando a execução da sentença.
Sartre afirma que é necessário distinguir entre a morte de um homem na velhice e a morte inesperada de um jovem. Essas duas situações não têm o mesmo significado ontológico. Poderia a morte de um jovem em um acidente automobilístico ser considerada como o acorde final de uma melodia? Heidegger teria, segundo Sartre, simplificado demais o fenômeno da morte para o indivíduo (DANDYK, 2015 p. 46).

Para Sartre, um "projeto individual pré-reflexivo" seria mais decisivo para a emergência do indivíduo no mundo do que a morte:

En un mot il n’y a aucune vertu personnalisante qui soit particulière à ma mort. Bien au contraire, elle ne devient ma mort que si je me place déjà dans la perspective de la subjectivité ; c’est ma subjectivité, définie par le Cogito préréflexif, qui fait de ma mort un irremplaçable subjectif et non la mort qui donnerait l’ipséité irremplaçable à mon pour-soi. En ce cas la mort ne saurait se caractériser parce qu’elle est mort comme ma mort et, par suite, sa structure essentielle de mort ne suffit pas à faire d’elle cet événement personnalisé et qualifié qu’on peut attendre (SARTRE, 1943, p. 579).

No sentido de Sartre, portanto, o conceito de "cogito pré-reflexivo" é decisivo para a compreensão da subjetividade. A emergência do indivíduo não se dá através da conversão da inautenticidade para a autenticidade, mas sim através do projeto inicial pré-reflexivo.

Dandyk (2015, p. 47) aponta que neste contexto surge ainda outra diferença entre Sartre e Heidegger. O filósofo alemão identifica a finitude do Dasein com a morte. Sartre, ao contrário, chama a atenção para o fato de que existe outro tipo de finitude da realidade humana que nada tem a ver com a morte. O projeto inicial significa uma limitação (Begrenzung) das próprias possibilidades. O homem torna-se um indivíduo ao fazer uma escolha dentre as inúmeras possibilidades que lhe são colocadas, e já esta escolha implica a finitude do Dasein. Assim, mesmo que eu vivesse eternamente, esta escolha especial de meu projeto inicial significa que não posso realizar mais todas as minhas possibilidades. Serei para sempre aquele que escolheu A como meu projeto inicial, embora B também fosse uma opção. Com a escolha de A termina-se o jogo. Mesmo se posteriormente eu escolhesse B, no sentido de uma total alteração, eu seria o mesmo que escolheu primeiro A e só depois B, mas nunca aquele que escolheu primeiro B e depois A. A irreversibilidade da sequência das escolhas lhes confere sua relevância e de forma alguma apenas o finitude no sentido da morte.

Sartre resume sua crítica ao conceito de Morte em Heidegger da seguinte maneira:

Ainsi, nous devons conclure, contre Heidegger, que loin que la mort soit ma possibilité propre, élie est 'un fait contingent qui, en tant que tel, m'échappe par principe et ressortit originellement à ma facticité. Je ne saurais ni découvrir ma mort, ni l'attendre ni prendre une attitude envers elle, car elle est ce qui se révèle comme l'indécouvrable, ce qui désarme toutes les attentes, ce qui se glisse dans toutes les attitudes et particulièrement dans celles qu'on prendrait vis-à-vis d'elle, pour les transformer en conduites extériorisées et figées dont le sens est pour toujours confié à d'autres qu'à nous-mê m e . La mort est un pur fait, comme la naissance ; elle vient à nous du dehors et elle nous transforme en dehors. Au fond, elle ne se distingue aucunement d e la naissance, e t c'est l'identité de la naissance et de la mort que nous nommons facticité (SARTRE, 1943, p. 590).

A morte é um fato contingente, e não uma possibilidade própria. Para Sartre, não é possível esperar a própria morte, a qual se configura como relação com o outro, não pertencendo à estrutura ontológica do Dasein.

4     Conclusão

A certeza mais básica do Dasein, para Heidegger, é a de sua própria morte - isso é, de sua mortalidade, que é uma possibilidade. A afirmação de que a morte é certa significa, portanto, que nossa não-existência é possível. A morte não é apenas uma possibilidade remota que não pode ser excluída, mas uma possibilidade que necessariamente pende sobre tudo que fazemos, a todo momento (POLT, 1999, p. 87).

Para Heidegger o Dasein se projeta rumo às possibilidades de seu ser e, neste sentido, está sempre "à frente de si mesmo" (sich vorweg). Nele há sempre algo ainda pendente: uma constante instabilidade e inconclusividade pertencem à essência de sua constituição básica. Quando não há nada mais pendente o Dasein não mais é, não mais existe, não está mais lá (Da). Enquanto for uma entidade o Dasein não pode alcançar sua completude, e se ele não a alcança, então este ganho se torna a perda de seu Ser-no-mundo enquanto tal.

Segundo Nunes (2002, p. 21), o Dasein se desencobre como poder-ser. Sendo algo meu este poder-ser, ele seria recuperável a todo instante, e assim a existência se prolongaria indefinidamente, ad aeternum, não estivesse o Dasein predeterminado pelo seu fim. A morte é vista, então, como possibilidade da impossibilidade, o que coloca o não-ser como essência da existência, caracterizando o que Heidegger chama de Ser-para-a-morte (Sein zum Tode).

O eu3 foge da morte como possibilidade própria a todo instante, refugiando-se no anonimato da gente: "quem morre é a gente, não eu" (NUNES, 2002, p. 21). O eu tem, no entanto, a possibilidade, de não fugir e, ao fazê-lo, exercita-se diante da mais extrema e radical possibilidade de si mesmo, antecipando, assumindo e decidindo. Esta decisão (Entschlossenheit) é uma escolha que traz angústia, na qual se libera o poder-ser mais próprio e mais autêntico do Dasein4 (NUNES, 2002, p. 21).

Indissociável da mortalidade é a angústia. Para Heidegger, a angústia é angústia da morte. Polt (1999, p. 88) utiliza um exemplo para mostrar como a morte está envolvida em um momento de angústia: "Estou plantando em meu jardim quando minha atividade repentinamente parece sem sentido. 'Qual o sentido de tudo isso? Quem sou eu', eu me pergunto. Estou alienado de mim como um jardineiro e do jardim como parte de meu mundo. De fato, estou desconfortável com qualquer papel que possa desempenhar no mundo, e indiferente a tudo à minha volta: tudo isso parece sem sentido. O que resta? Apenas a verdade nua de que me encontro em uma situação na qual sou forçado a fazer algo de mim mesmo. Mas isso é precisamente o que é percebo quando confronto a mortalidade: quando aceito o fato de que minhas possibilidades não são nem ilimitadas, nem garantidas, percebo a importância de escolher a possibilidade e me definir por ela. Quando sinto que este poderia ser o último momento de minha vida, eu necessariamente me pergunto o que a vida acrescenta e quem eu sou. Eu realmente quero viver e morrer como um jardineiro (um escultor, um político, um padre)? Na ansiedade eu enfrento a mortalidade porque sinto a fragilidade de minha vida e a necessidade de decidir o que ela significa". (POLT, 1999, p. 88)

Em relação à morte o Dasein está diante de sua mais própria possibilidade. Heidegger afirma que minha mortalidade é minha possibilidade mais própria. O que faz minha vida ser minha é o simples fato de ser minha para viver, de ser minha para fazer algo dela face à minha possível não-existência. Qualquer outra possibilidade é algo que posso ser livre para não fazer, e que outra pessoa possa fazer tão bem quanto eu. Minha morte, no entanto, é uma possibilidade que só eu posso enfrentar, e ninguém em meu lugar (POLT, 1999, p. 87).

Para Sartre, no entanto, há outras possibilidades existenciais intransferíveis, não se configurando a morte como a única. No sentido desta crítica sartreana, Mulhall (2005, p. 126) argumenta que ninguém poderia, por exemplo, espirrar em meu lugar, mas que este tipo de exemplo, contudo, não cobre os outros dois aspectos da caracterização existencial tripartite da morte. Nossa existência como Ser-no-mundo não é colocada em questão ao pegarmos um resfriado e, embora seja pouco provável, é pelo menos possível imaginar um ser humano que jamais tenha espirrado.


5     Bibliografia

HEIDEGGER, Martin. Sein und Zeit. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1977.

SARTRE, Jean-Paul. L’être e le néant: Essai d'ontologie phénoménologique. Paris: Éditions Gallimard, 1943.

MULHALL, Stephen. Heidegger and Being and Time. 2ª ed. New York: Routledge, 2005.

NUNES, Benedito. Heidegger & Ser e Tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

POLT, Richard. Heidegger: an introduction. Ithaca: Cornell University Press, 1999.

GORNER, Paul. Heidegger's Being and Time: an introduction. New York: Cambridge, 2007.

DANDYK, Alfred. Der Tod bei Heidegger und bei Sartre.Disponível em <>. Acesso em 28 de novembro de 2015.

PAYER, Karl. Sein und Zeit: Einführung zum Kommentar. Disponível em . Acesso em 08 de dezembro de 2015.

WARNECKE, Thomas. Mein Tod berührt mich nur am Rande – Sartres Analyse der Bedeutung des Todes für die „menschliche Wirklichkeit“. Disponível em . Acesso em 09 de dezembro de 2015.


NOTAS



[1]Vorlaufen é o nome dado por Heidegger à própria morte vista pela vida configurada (gestalten). Isso é possível apenas em uma situação determinada, que é o próprio modo de ser autêntico (eigentlichen Existenzweise). Nesta situação especial tomo os outros homens e os objetos de outra forma totalmente verdadeira do que na habitual situação cotidiana (Alltagzustand). Também o meu lidar com eles é totalmente outro (PAYER, 2015, p. 11).

[2] Segundo Polt (1999, p. 86), a palavra "morte" torna mais difícil distinguir o fenômeno que Heidegger está discutindo daquilo que ele chama "falecimento" - o evento real no qual um corpo humano deixa de funcionar. O termo "mortalidade" seria talvez mais apropriado. A mortalidade é uma condição permanente dos seres humanos, não um evento único. É uma possibilidade que pertence a todos nós, e não um acontecimento.

[3] Este “eu” é chamado por Heidegger de Alltägliches Sein zum Tode. Segundo Payer (2015, p. 11), na vida cotidiana (alltäglichen Leben) o homem fecha-se diante da própria morte. Vive como se a morte fosse um princípio geral, que a todos une e subjaz. Cada um ocupa-se com a morte dos outros, mas não com sua própria. Espera-se uma possível vida longa, e até mesmo como se a própria morte não fosse certa.

[4]Em oposição ao Alltägliches Sein zum Tode estabelece Heidegger o Eigentliches Sein zum Tode, isso é, os critérios da autêntica vida para a morte: exatamente como eu vivo minha vida, morro apenas a minha morte. Projeto minha vida responsavelmente e autodeterminado em relação à morte, pelo que estou certo que ela pode chegar a qualquer momento. Após a morte não há mais nada para mim; com ela chega ao fim o meu Dasein. Sei que todas as minhas atividades, meus pensamentos e ações conduzem, ao final, para ela. Desta forma, eu não me fecho diante da morte, mas me abro e vivo em liberdade para ela (PAYER, 2015, p. 11).