Learning from books vs. learning from experience

Posted: 26.12.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Learning how to learn is a question of general interest, since everybody is learning something new every day. People want to be good at what they learn, but one cannot achieve this goal without putting the question as to the best way to learn a specific subject matter. When should one be more practical, and when should one be more theoretical? Not everything is contained in books, but not everything can be learned from experience alone as well. 

Knowledge gained from theoretical books are usually the appropriation of systematized series of observations made by different people, while knowledge from experience comes from fewer individual observations made by a single person.  Scientific books, for example, are usually written summing up experiences of many individuals, trying to be as objective as possible. On the other hand, when one learns something only by his\her own practice, he\she has a limited number of personal, subjective experiences, before establishing his\her conclusions. When one writes down what he or she has learned only by personal experience, the result is not a scientific treatise, but a biography, for example. Knowledge gained from experience tends to be more contingent, while knowledge gained from theoretical books tends to seek universality.

Another difference between these two ways of learning is that theoretical knowledge gained from books gives us orientation to observe the real world of experience, but knowledge gained from experience, in its turn, might correct our theories about the world. Science works that way. If a scientist must look to a given phenomenon, how can he\she know beforehand what is important to observe in that specific case? Is it important, for example, to take into account the size of a laboratory when observing the behavior of radio waves? At first, it might seem that the size of the lab does not matter. However, an experiment once showed that the waves’ circulation was changed after hitting the walls of the lab, and that different results could be obtained depending on the size of the room. Philosophy of Science has since then highlighted that experience guides theory, but theory also guides observation of experience.

Finally, knowledge from books are more appropriate to certain objects or fields of study, while knowledge gained from experience is more appropriate to others. Plato discussed this question in his dialogue “Meno”, in which he asked the question whether virtue can be taught. Virtue, in Greek, is “arête”, which means “excellence”.  Plato pointed out that political excellence, for example, could not be taught, since great political leaders, like Pericles, for instance, could not teach their ability to their own sons, although these same men could teach them how to ride a horse or how to fight with swords. This seems to indicate that some things can be learned only by personal experience, but that others, on the contrary, are in fact teachable, i.e., can be learned from books. The object of study determines when learning from books is most suitable and when learning from experience is the best choice.

Neither can everything be learned from books, nor can everything be learned from experience alone. Learning gained from books, or theoretical knowledge, seeks universality, guides the observation of experience and applies only to teachable subject matters. Learning gained from experience, or practical knowledge, in its turn, is restricted by subjectivism and to teachable subject matters, although they can correct general theories about the observation of the natural world.

Glauber Ataide

A imutabilidade de Deus em "A República", de Platão, e a análise lógica de Boole

Posted: 7.9.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Argumentos longos e complexos constituem um desafio à verificação de sua formação e validade, demandando tempo, atenção e rigor para que sejam testados. Apresentamos, abaixo, um exemplo de como aplicar uma análise lógica em um argumento extenso a fim de verificar sua coerência. O texto foi extraído do Livro II de A República, de Platão, e apresenta um diálogo entre Sócrates e Adimanto, no qual o filósofo de Atenas argumenta que Deus é imutável. Logo após apresentamos a formalização deste argumento realizada pelo lógico George Boole, já no século XIX, a qual revela a impecável  forma do raciocínio de Platão.

Sócrates — Vejamos agora a segunda regra. Acreditas que Deus seja um mágico capaz de assumir, perfidamente, formas variadas, ora de fato presente e transformando a sua imagem numa infinidade de figuras diferentes, ora enganando-nos e mostrando de si mesmo apenas simulacros sem realidade? Não será antes um ser simples, de todo incapaz de deixar a forma que lhe é própria?
Adimanto — Não sei o que responder-te.
Sócrates — Não concordas, ao menos, em que, se um ser deixa sua forma que lhe é própria, tal transformação deve, forçosamente, provir de si mesmo ou de outro ser?
Adimanto — Sim, sem dúvida.
Sócrates — Pois bem, as coisas melhor constituídas não são as menos sujeitas a ser alteradas e movidas por uma influência estranha? Pensa, por exemplo, nas alterações causadas no corpo pelo alimento, pela bebida, pela fadiga, ou na planta pelo calor do Sol, pelo vento e por outros acidentes que tais; o indivíduo mais são e vigoroso não é o menos atingido?
Adimanto — Sim.
Sócrates— E, da mesma maneira, não é a alma mais corajosa e sábia a que menos é perturbada e alterada pelos acidentes exteriores?
Adimanto — Por certo.
Sócrates — Pelo mesmo motivo, de todos os objetos produzidos pelo trabalho humano, edifícios, vestuário, se forem bem confeccionados e em bom estado, alterar-se-ão o mínimo por efeito do tempo e dos demais acidentes.
 Adimanto — E exato.
Sócrates — Em geral, todo o ser perfeito, que tira a sua perfeição da natureza, da arte ou das duas, está menos sujeito às transformações vindas de fora.
Adimanto — Assim é.
Sócrates — Mas se Deus é perfeito, tudo que se refere à sua natureza é em todos os aspectos perfeito?
Adimanto — Sem dúvida.
Sócrates — Assim, pois, Deus é o menos sujeito a receber formas diferentes.
Adimanto — Certamente.
Sócrates — Seria, então, por si mesmo que Ele mudaria e se transformaria?
Adimanto — Evidentemente, seria por si mesmo, se é certo que Ele sofre tais mudanças.
Sócrates — Mas Ele toma uma forma melhor e mais bela ou pior e mais feia?
Adimanto — Forçosamente, toma uma forma pior, porque não seria apropriado dizer que falta a Deus algum grau de beleza ou de virtude.
Sócrates — Muito bem. Mas, se assim é, acreditas, Adimanto, que um ser se torna voluntariamente pior em qualquer aspecto que seja — quer se trate de um deus, quer de um homem?
Adimanto — E impossível.
Sócrates — Então, também é impossível que um deus concorde em transformar-se; sendo cada um dos deuses o mais belo e o melhor possível, permanece sempre na forma que lhe é própria.

Análise lógica do argumento realizada por Boole:

- Se Deus muda, então Deus é mudado por Deus ou Deus é mudado por outrem.
- Se Deus está no melhor estado, então Deus não é mudado por outrem.
- Deus está no melhor estado
- Se Deus é mudado por Deus, então Deus é mudado para um estado pior.
- Se Deus age de livre vontade, então Deus não é mudado para um estado pior.
- Deus age de livre vontade.
- Deus não muda.

A = Deus muda
B = Deus é mudado por Deus
C = Deus é mudado por outrem
D = Deus está no melhor estado
E = Deus é mudado para um estado pior
F = Deus age de livre vontade

A → (B ∨ C)
D → ¬ C
D
B → E
F → ¬ E
F
______________
¬ A


A análise de Boole chega a ¬ A, ou "não Deus muda", que é exatamente a conclusão de Sócrates: "Então, também é impossível que um deus concorde em transformar-se; sendo cada um dos deuses o mais belo e o melhor possível, permanece sempre na forma que lhe é própria."

O bom nazista

Posted: 3.9.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Talvez não seja nenhum exagero afirmar que a maioria dos nazistas eram boas pessoas. Em sua intimidade, em sua vida familiar ou em sua relação com os vizinhos, talvez aquelas multidões que vemos nos registros das manifestações nazistas fossem compostas, em quase sua totalidade, por pessoas honestas, trabalhadoras, solidárias, bons pais, boas mães, bons vizinhos e bons filhos. A imagem que temos dos nazistas como monstros me parece uma simplificação grosseira do fenômeno.

O mecanismo psicológico que leva alguém a tratar nazistas como monstros é rudimentar, primitivo, arcaico, e um de seus usos pode ser observado, por exemplo, na construção das histórias infantis. É característico dos contos de fadas representarem seus personagens de maneira inequívoca, sem ambiguidades de caráter. Tendo como principal público as crianças, ainda psicologicamente incapazes de discernir nuances nas personalidades dos caracteres, a inteligibilidade desses contos exige que uma bruxa má, por exemplo, seja somente má, e que uma fada boa, por sua vez, seja o tempo todo boa. Uma bruxa que fosse boa em algum aspecto de sua vida social, mas malvada em outros, não seria compreendida pelos pequeninos.

Esta estereotipagem maniqueísta entre indivíduos bons e maus, normais e desequilibrados, que quase nunca ocorre na vida real, impregna também a maneira como o nazismo, um dos fenômenos mais complexos da história do século XX, é retratado, compreendido, divulgado e assimilado. O frequente recurso à psicologia para tentar explicar este movimento político como derivado de distúrbios psíquicos de alguns de seus líderes – Hitler e seus consortes - é uma resposta fácil, reconfortante e ao mesmo tempo errada a uma questão que não admite ser reduzida apenas aos seus aspectos psicológicos ou éticos.

A imagem de nazistas como monstros ou como indivíduos totalmente diferentes de todas as pessoas que conhecemos nos torna incapazes de identificar, detectar, reconhecer o perigo do fascismo que pode estar à espreita. Um bom pai, uma boa mãe ou um sujeito caridoso que regularmente dá esmola aos pobres jamais se reconhecerá - e nem será reconhecido pela maioria - como um fascista, mesmo que defenda todas as bandeiras do fascismo. A estereotipagem hollywoodiana e das revistas baratas de semicultura que povoam as bancas de jornais nada esclarecem sobre o assunto. (Imagino que análises da grafia de Hitler e de seus supostos traumas de infância vendam muito bem, pois revistas com estes temas praticamente não saem das bancas, sempre recebendo novas edições.) O que essas publicações fazem ao divulgar tais análises psicologizantes é um desserviço à história, pois o esvaziamento do nazismo de seu teor político cede espaço tanto para o irracionalismo quanto para uma reedição do fenômeno.

Do ponto de vista psicológico e individual, não se pode dizer que cada nazista era um monstro, alguém muito diferente de nós. Adolf Eichmann, um oficial nazista corresponsável pela deportação e morte de milhares de judeus, foi julgado em Jerusalém no ano de 1961. A filósofa alemã Hannah Arendt, que cobria seu julgamento como correspondente do jornal The New Yorker, se surpreendeu ao perceber que Eichmann não era nenhum "monstro" tal como ela esperava. Cerca de meia dúzia de psiquiatras o avaliaram e concluíram que ele era alguém absolutamente normal, com um perfil psicológico até “desejável”. Eichmann era um bom pai, um bom marido, um bom amigo, um bom filho e tinha ideias “altamente positivas”, como afirmou um ministro que lhe visitava com frequência na prisão. Um dos psiquiatras teria dito que Eichmann era mais normal do que ele próprio ficou depois de tê-lo analisado.

Hannah Arendt afirmou que, a despeito de todos os esforços da acusação, todos puderam perceber durante o julgamento que Eichmann não era um “monstro” (embora fosse difícil não suspeitar que fosse um palhaço, o que acabou sendo ignorado por causa da gravidade dos seus atos). Quanto mais se ouvia o que ele tinha a dizer, mais óbvio se tornava que sua inabilidade em falar estava estreitamente relacionada com sua inabilidade de pensar, isso é, de pensar a partir da perspectiva do outro.

O nazismo é divulgado na cultura de massa como uma ameaça distante tanto no tempo quanto no espaço, protagonizado por caracteres totalmente diferentes de nós. Chega a ser algo exótico. Assistir a certos documentários sobre o nazismo é quase como assistir a documentários sobre extraterrestres ou sobre o império romano. E esta desumanização dos nazistas, o fato de considerá-los "monstros" e não humanos, esconde, oculta, mascara o fascismo nosso de cada dia.

Em outubro de 2015, um conhecido dirigente do PT (Partido dos Trabalhadores) faleceu e estava sendo velado na cidade de Belo Horizonte. Manifestantes de direita foram até o local com cartazes ofensivos e despejaram grande quantidade de panfletos políticos contra o partido do defunto. A notícia de tal desrespeito à família chocou a todos os cidadãos de bom senso, a todos aqueles que entendem que a morte nivela, iguala a todos, independente das opções políticas. Um ato como este, que não respeita nem mesmo a morte de um ser humano que tinha ideias políticas divergentes, não é apenas uma demonstração de desumanização do falecido, mas revela um processo de desumanização em curso nos próprios manifestantes. Havia entre estes algumas senhoras que, podemos pensar, talvez até tenham a simpatia de seus vizinhos. Podem ser pessoas boas em vários aspectos de nossa multifacetada vida social, em vários dos papeis sociais que desempenhamos: mãe, avó, vizinha, etc. Elas próprias, contudo, jamais se identificariam com os históricos nazistas alemães, pois estes (elas também devem pensar assim) eram monstros, gente muito diferente de todo mundo que conhecem. Elas, ao contrário, certamente se enxergam como pessoas boas, cheias das melhores intenções em sua busca por um "futuro melhor" para o país.

A desumanização do nazismo é perigosa porque mascara que ele está entre nós. Ao transformar Hitler em monstro sobram poucos candidatos ao título, e parte desses já estaria fora de circulação - ou no hospício ou na cadeia. É preciso compreender que não há contradição em ser uma boa pessoa, ter alta cultura e ser um fascista ao mesmo tempo. Eichmann impressionou Hannah Arendt porque era uma pessoa extremamente normal, comum. Era um burocrata de escritório que obedecia a ordens, incapaz de pensar e de se colocar no lugar do outro. Ele jamais reconheceu que havia feito algo errado pois, em sua consciência, apenas “cumpria ordens” que eram legais em seu país. E nisso ele nos lembra os burocratas de empresas e outros lacaios dos capitalistas, os quais estão sempre apenas "cumprindo ordens", sem questionar. Quando questionados, apenas respondem que "é assim", como se não tivessem consciência e nem responsabilidade sobre o que fazem.

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Para conhecer o bom nazista da foto que ilustra este post, veja esta matéria: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2010/aug/28/martin-davidson-grandfather-perfect-nazi

Psicanálise: clínica & pesquisa

Posted: 2.9.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Em Psicanálise: clínica & pesquisa, Luciano Elia se propõe a demonstrar em que medida a pesquisa se impõe à prática em psicanálise, revelando como a pesquisa é uma dimensão essencial da práxis analítica. Além disso, o autor articula o conceito de sujeito na ciência e na psicanálise e discorre sobre diversos aspectos sócio-econômicos implicados em uma concepção teórica elitista da psicanálise. 

A psicanálise é uma ciência?

Um importante aspecto a se considerar na questão é que a psicanálise deriva da ciência, mas não se reduz a ela. Apesar da aspiração de Freud a que a psicanálise fosse reconhecida como uma ciência, do ponto histórico em que estava não lhe era possível extrair todas as conseqüências desse seu passo. Lacan então interroga: que ciência poderia incluir a psicanálise?

A resposta é que nenhuma das ciências é capaz de responder à questão que a psicanálise lhes coloca, constituído esta, então, uma derivação e uma ultrapassagem da ciência. A psicanálise, segundo demonstrado por Lacan, é um saber inteiramente derivado, porém não integrante do campo científico, e tudo isso devido à introdução do sujeito pela psicanálise na cena discursiva, sujeito este que foi excluído da ciência.

O sujeito na ciência foi inventado por Descartes, mas é um sujeito sem qualidades, sejam sensoriais, perceptuais, anímicas, morais, enfim, numa palavra, empíricas. É um sujeito sem qualidade alguma.
Dizer, portanto, que a psicanálise deriva da ciência seria dizer que o sujeito com o qual se opera em psicanálise – o sujeito do inconsciente - é um sujeito sem qualidades. O sujeito da psicanálise só pode ser incluído como sujeito do inconsciente.

Ao considerar que há um modo peculiar de fazer pesquisa em psicanálise, entramos no terreno do método. E a questão crucial deste método é a inclusão do sujeito em toda a extensão, e em todos os níveis – saber teórico, prática clínica, atividade de pesquisa, etc. Toda e qualquer pesquisa em psicanálise é, assim, necessariamente uma pesquisa clínica.

A psicanálise e sua extensão social

O lócus específico do exercício clínico psicanálise tem sido o consultório particular. No entanto, a concepção deste consultório como lugar, na maioria das vezes, exclusivo de se fazer psicanálise, deve ser colocado em questão.

A concepção do setting analítico, decorrente dessa característica do consultório particular, teve como uma de suas conseqüências a elitização da psicanálise, sua restrição a determinadas camadas sociais que tem acesso à configuração clássica denominada consultório particular. Procede-se como se os princípios teóricos clínicos e éticos da psicanálise autorizassem avalizassem e até exigissem certas condições ditas “técnicas” para o exercício da prática psicanalítica, como uma configuração logística eivada de pré-requisitos socioeconômicos, políticos e ideológicos, pertinência às classes de renda mais elevada, etc.

Mas a utilização de algum rigor no exame da questão revela rapidamente o grau dessa deformação, afirma Elia. Pelo fato de a psicanálise introduzir no campo do saber a dimensão do homem inconsciente, uma conseqüência fundamental é a seguinte: o sujeito do inconsciente não é um sujeito empírico, dotado de atributos psicológicos, sociais, políticos, ideológicos ou afetivos. Enquanto tal, ele é sem atributos. E o próprio Freud, em diversos momentos, coloca o sujeito acima de suas configurações ou inserções sociais, o que demonstra que a elitização da psicanálise foi um desvirtuamento precoce.

É possível fazer psicanálise em qualquer estrato social, em qualquer ambiente institucional (não apenas no clássico setting analítico, que deve ser interpretado, de acordo com Lacan, como um lugar estrutural, e não físico), desde que haja analista, de um lado, e sujeito dividido, de outro. O elitismo é demonstrado, portanto, como impossível numa postura rigorosamente psicanalítica.

O fato de a psicanálise se manter ainda reduzida a determinada extensão social persiste porque os analistas aderem a uma configuração do dispositivo analítico decorrente de um processo de imaginarização das condições de análise, que se relacionam no mais alto grau a uma ideologização da prática psicanalítica a partir de sua inserção no sistema capitalista.

Psicanálise e universidade

A psicanálise é relativamente recente tanto na universidade quanto no mundo. No entanto, a partir de Lacan, viu-se que ela não poderia definir-se como especialidade médica, abrindo assim seu exercício a outros agentes. No Brasil isso ocorreu de tal forma que a maioria dos psicanalistas hoje são psicólogos. A psicanálise passa hoje, portanto, por uma desmedicalização juntamente com uma deselitização. E tais efeitos não deixam de se relacionar com a inserção da psicanálise na universidade.

O discurso analítico, segundo Lacan, pode habitar a universidade sem prejuízo ou deterioração para si ou para as práticas universitárias.

A pesquisa em psicanálise - o uso de material clínico

Posted: 31.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O texto abaixo é uma resenha do artigo O uso de material clínico na pesquisa psicanalítica, de Gilberto Safra.

A psicanálise é, desde o seu início, uma terapia e um método de investigação do psiquismo humano. A própria atitude de Freud diante das dificuldades encontradas ao longo do processo de elaboração da psicanálise o levou a aprender continuamente de sua prática, o que conferiu a esta a característica de estar em permanente transformação e expansão. Assim, desde o seu início temos o modelo de pesquisa em psicanálise: o diálogo permanente entre a teoria e a clínica.

Para ilustrar o tema proposto em seu artigo, Safra apresenta o caso de uma paciente, Jane, de 19 anos. Esta jovem decidiu iniciar o processo de análise devido a alguns sintomas que a perturbavam no cotidiano, como não conseguir dirigir automóvel, usar elevadores, viajar de avião, etc. 

Jane vinha apresentando vários progressos após 5 anos de análise, quando então aconteceu o episódio que nos interessa: ela faltou a uma de suas sessões sem avisar. Na sessão seguinte, entrando na sala de análise com os olhos abaixados e sem fitar o analista, deitou-se e já foi justificando sua falta passada. Disse que foi convidada para ir ao cinema com o namorado, e que então teve que escolher entre este programa e a análise. Seu tom de voz sugeria que ela estava se desculpando.

Ao perceber isso, o analista lhe perguntou por que ela estava se desculpando, ao que ela respondeu que não sabia, que sentia talvez estar fazendo alguma coisa errada e que o analista lhe daria uma bronca. O analista então lhe respondeu dizendo que ela parecia ter medo de que ele não aceitasse que ela tivesse uma vida própria e seu namorado, e que ele sentiria ciúmes ou inveja. Jane respondeu chorando e confessou que suas vivências haviam sido assim com sua mãe.

Após este relato Safra pergunta: uma vez que o analista não toma notas durante a sessão, seria este relato uma apresentação acurada do que realmente se passou no consultório? Pois muitos são os fenômenos que se passam entre analista-analisando impossíveis de serem registrados.

Daí a conclusão geral de que o relato realizado, portanto, é um modelo construído a partir de um recorte do que realmente aconteceu na sessão, baseado na interpretação e elaboração das angústias que se manifestam na relação transferencial. Jane, neste caso, parecia buscar no analista um objeto que não retaliasse as suas tentativas de autonomia. 

Assim, pretender que fosse exato o relato do que se passa numa sessão seria acreditar que é possível captar o absoluto. Para a utilização do material clínico para pesquisa é necessário levar em conta que se trata de um recorte, limitado por um determinado ponto de vista. A psicanálise inaugurou uma nova maneira de fazer pesquisa, na qual deve-se levar em conta a participação do sujeito no fenômeno que observa.

Mas não há, no entanto, um saber que possa ser aplicado a todos os indivíduos na psicanálise. A cada análise o psicanalista deve despojar-se do que já conhece teoricamente para perceber o original e novo que seu paciente lhe apresenta. Neste sentido, a cada atendimento há, de fato, uma renovação da psicanálise.

A sessão relatada pode ilustrar este ponto. Jane vinha à sessão temendo um ataque ciumento e invejoso do analista. A paciente havia identificado projetivamente no analista seu objeto interno perseguidor. Essa relação objetal internalizada era a conjunção de uma mãe infantilizada com a autodestrutividade de Jane. No entanto, o analista percebeu que naquele exato momento o importante não era trabalhar sua autodestrutividade, o que já havia sido feito em outras sessões, mas sim poder encontrar, através da relação transferencial, um objeto contrastante ao objeto internalizado, que não atacasse suas tentativas de autonomia. Surgia a possibilidade de um novo padrão de relação objetal em seu mundo interno.

Como se pode ver, trata-se de uma situação que possui uma singularidade, que dependeu da história da relação entre os dois participantes do processo.

O ponto importante a ser sublinhando na sessão descrita é que se poderia ter interpretado a falta de Jane enfocando o ataque narcisista ao enquadre. No entanto, como a interpretação foi outra, enfocando a busca do desenvolvimento da paciente, isso permitiu que ela introjetasse um objeto não-possessivo e não competitivo.

A interpretação enfocando a agressão teria levado a paciente a reviver, na situação transferencial, uma relação objetal destruidora do seu desenvolvimento. Assim, temos aqui um exemplo de que nem todo ato é destrutivo para o processo psicanalítico.

O recorte da pesquisa

Um mesmo material pode ser utilizado para investigar dimensões diferentes do fenômeno clínico. No caso de Jane, poderia ser utilizada uma sessão para investigar o papel da comunicação pré-verbal na relação analista-analisando. Jane inicia sua sessão associando a respeito de sua falta na sessão anterior. O analista fez sua intervenção baseada no tom de voz da paciente e sua postura ao entrar na sala. Esses elementos pré-verbais permitiram que fosse diagnosticada a identificação projetiva da paciente.

Mas aqui se abre uma nova possibilidade de pesquisa: o que ocorreu com a paciente para que ela reagisse à intervenção chorando? Seria expressão de pesar? Desejo de aplacar o analista?

O psicanalista como pesquisador

Assim, dentro do modelo psicanalítico, não se pode falar do estudo do fenômeno psíquico sem levar em conta também o psiquismo do pesquisador. Este fato tanto pode contribuir para elucidar os fenômenos quanto para ocultá-los.

É fundamental para a pesquisa em psicanálise que o analista tenha a possibilidade de auto-analisar as suas reações psíquicas diante de seu trabalho com o seu paciente. Daí a obrigatoriedade nessa área de que o pesquisador tenha se submetido ao próprio processo que utilizará no seu trabalho de investigação. A objetividade nessa área de pesquisa dependerá da autoanálise do pesquisador.

No exemplo de Jane, só foi possível ao analista lidar com os sentimentos de exclusão diante da falta da paciente através de sua auto-análise. Caso o analista não tivesse podido se discriminar dessas fantasias, teria provavelmente interpretado a falta da paciente como ataque ao processo analítico e ela teria vivido o ocorrido como uma repetição da sua relação com um objeto ciumento e invejoso.

Depressão, antidepressivos e psicanálise

Posted: 29.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Ser feliz nunca foi tão fácil: independente de como esteja o mundo ou sua vida, existe uma pílula específica para o seu caso. A psiquiatria moderna garante que sua infelicidade tem cura, e a um preço razoável.

Esta é a denúncia feita pelo médico estadunidense Ronald W. Dworkin, autor do livro Felicidade artificial: o lado negro da nova classe feliz, da editora Planeta. Nesta obra, Dworkin revela que o consumo de antidepressivos e outras drogas psicotrópicas está aumentando, criando o que ele chama de felicidade artificial. Isso é, está-se formando uma nova geração de pessoas que se sentem felizes independentemente do que façam com suas vidas. Não importa como vai o emprego, os problemas financeiros ou o relacionamento: é possível ser feliz à base de pílulas, apesar de tudo.

Desde meados do século passado a infelicidade tem sido vista como uma doença. Essa tendência teve início nos EUA, quando os médicos de atenção primária simplesmente não sabiam como reagir aos problemas sociais e emocionais que eram levados aos consultórios por seus pacientes. A partir daí, sob a pressão para proporcionar alívio imediato ao sofrimento psíquico e com uma formação humanista extremamente deficiente, a estes profissionais se tornou atraente a linha de investigação que considerava as doenças psíquicas apenas segundo seus sintomas e seus aspectos mais superficiais.

Dentre todos os problemas psicológicos modernos a depressão é o caso mais emblemático. Esta é uma das doenças que mais levam ao consumo de fármacos, e segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 350 milhões de pessoas sofrem de depressão atualmente, sendo a maioria mulheres. No Brasil gastou-se cerca de R$1,8 bilhão com antidepressivos e estabilizadores de humor no ano de 2012, um aumento de 16,29% em relação ao ano anterior, colocando o país na liderança mundial de venda dessas drogas. A depressão tem sido abordada pela atual psiquiatria como uma disfunção química do cérebro, como mera falta de seratonina. 

Mas segundo o psicanalista britânico Darian Leader, autor do livro Além da depressão – novas formas de entender o luto e a melancolia (Editora BestSeller), a maioria dos historiadores da psiquiatria e da psicanálise concorda que a depressão foi criada como uma categoria clínica, entre outros motivos, por uma pressão para classificar os problemas psicológicos da mesma forma que os outros problemas de saúde, o que deu nova ênfase no comportamento superficial, deixando de lado os mecanismos mais profundos, inconscientes. Na década de 1970, após divulgação dos efeitos nefastos e viciantes dos tranquilizantes mais comuns para a depressão terem sido publicados e seu mercado ter desmoronado, uma nova categoria diagnóstica foi criada – e ao mesmo tempo um remédio para ela. Como resultado, a indústria farmacêutica lucrou tanto com a idéia da depressão quanto com sua cura.

Ainda segundo Darian, existe hoje certo ceticismo em relação aos antidepressivos. Sabe-se bem que a maioria dos estudos sobre sua eficácia é financiada pela indústria farmacêutica e que, até recentemente, os resultados negativos raramente eram publicados. 

O tratamento da depressão, quando vista como um “problema cerebral”, traz inúmeros riscos. A ingestão de paroxetina, por exemplo, aumenta o risco de suicídio. De acordo com a chamada “mitologia cerebral” da atual psiquiatria, no entanto, existe uma explicação bioquímica: essa substância causa apenas “pensamentos suicidas”. Dessa maneira, segundo Leader, tal explicação compartilha da crença de que nossos pensamentos e ações podem ser determinados bioquimicamente.

Isso se revela, numa análise de fundo, como um desdobramento de certa orientação filosófica do materialismo vulgar. O surgimento da psicanálise no final do século XIX foi uma resposta a essa antiga concepção, a qual hoje se reapresenta com ares de novidade. A psiquiatria não considera, em grande medida, as especificidades de cada indivíduo, e só precisa lhe ouvir no consultório para saber quais são seus sintomas mais superficiais. A psicanálise, ao contrário, deu voz ao indivíduo. Não o considera como um objeto, não o examina sob as lentes de um microscópio. A psicanálise considera a subjetividade e a história de cada indivíduo como únicas. É por isso que psicanalistas como Darian Leader defendem a necessidade de abandonar o atual conceito psiquiátrico de depressão e de considerá-la como um conjunto de sintomas que derivam de histórias humanas complexas e sempre diferentes, à luz dos conceitos freudianos de luto e melancolia. O tratamento psicanalítico da depressão busca suas causas mais profundas na história de vida do indivíduo e em seu inconsciente, não se limitando apenas aos sintomas e seus derivados.

Sem sombra de dúvidas os medicamentos auxiliam no alívio temporário do sofrimento, e são muito importantes quando seu uso é conjugado com outras psicoterapias, principalmente a psicanalítica. Sozinhos, no entanto, nunca resolvem definitivamente o problema da depressão, além de causarem efeitos colaterais e oferecerem grande risco de dependência. O mito da depressão como uma doença exclusivamente biológica é um conceito altamente lucrativo para a indústria farmacêutica, mas igualmente preocupante para a saúde pública. Como afirma Elisabeth Roudinesco em Por que a psicanálise?, não se trata de “contestar a utilidade dos  medicamentos e desdenhar o conforto que proporcionam”. A questão é que eles são “incapazes de curar o homem de seus sofrimentos psíquicos, sejam normais ou patológicos. A morte, as paixões, a sexualidade, a loucura, o inconsciente, a relação com o outro modelam a subjetividade de cada ser humano, e nenhuma ciência digna desse nome escapará disso.” A psicofarmacologia, segundo Roudinesco, não faz mais do que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, e encerrou o sujeito numa alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana.

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Posted: 28.8.16 by Glauber Ataide in
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Don't argue with me... I have a philosophy degree

Posted: 12.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Encontrei por acaso. Uma sugestão de presente para mim (meu aniversário é mês que vem).

"Don't argue with me... I have a Philosophy degree..."

Chutes altos sem aquecimento - chutes laterais

Posted: 2.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Chutes altos sem aquecimento,  o alinhamento correto do corpo para chutes laterais
Por Thomas Kurz

Este é o sexto artigo da minha coluna sobre treinamento que apareceu na edição de janeiro de 2000 na revista Taekwondo Times.

Para ler o artigo anterior, clique aqui

Além da forma correta de desenvolver flexibilidade - o que significa fazer os alongamentos corretos na hora correta, para dar chutes altos sem nenhum tipo de aquecimento -, você precisa também conhecer e praticar a técnica correta de chutar, incluindo o alinhamento correto do corpo. Neste artigo você aprenderá o alinhamento correto do corpo para o chute lateral. O chute de gancho (puxando) eu abordarei no próximo artigo.

Quando eu comecei a treinar Karate na Polônia, aos 20 anos de idade, era óbvio para mim que se alguma pessoas precisavam se preparar, alongar e se soltar antes de chutar, então havia algo de errado ou com elas, ou com seus chutes.

Eu sabia como me alongar porque eu já estava na AWF (Universidade de Educação Física). Mas alguns intrutores de Karate me mostravam chutes altos que forçariam meus ligamentos, mesmo minha flexibilidade sendo boa. O problema era que o alinhamento do corpo que funcionava para um determinado chute quando seu alvo era baixo (como no Karate Okinawan original) não funcionava quando o alvo era alto - não funcionava, quer dizer, a não ser que a pessoa tivesse uma extraordinária amplitude de movimento nos quadris e nas juntas da parte inferior das costas. (Os chutes altos que tanto atraem os jovens foram introduzidos no Karate por Yoshitaka Funakoshi, filho de Gichin Funakoshi, sem nenhuma preocupação se eles faziam sentido em combate [Draeger, 1974, p. 134].)

Felizmente eu conheci Mac Mierzejewski, o autor de Power High Kicks with No Warm-Up! ("Chutes Altos Fortes sem Aquecimento!", em tradução livre), um excelente lutador de Karate e instrutor que também estudou na AWF. Ele era menos flexível que eu, mas podia dar qualquer chute mais alto do que eu podia dar, com força suficiente para nocautear, e sem nenhum alongamento prévio.

Durante nossos treinos individuais ele me ensinou como alinhar o corpo para uma maior altura e mais potência nos chutes, sem ter que alcançar os limites da amplitude de movimento nas juntas dos quadris. Ele me mostrou os "pequenos" detalhes das técnicas de chutes que te permitem chutar algo e com potência sem aquecimento! E como bônus, estes mesmos pequenos detalhes reduzem as chances de lesões.

Sim, você pode aprender a dar chutes altos estando "frio(a)", sem se machucar, sem puxar os músculos, ou mesmo sem sentir dores. Tudo que você precisa é aprender (e praticar!) o correto alinhamento do corpo para se certificar que seus quadris e joelhos não se machuquem ao dar chutes laterais e chutes ganchos.

Eu usarei o exemplo de um chute lateral de levantamento de perna (yoko keage, no Karate), um chute que deveria ser aprendido antes de aprender o chute alto lateral com impacto no alvo (yoko geri kekomi, no Karate, e Yop-chagi, no Taekwondo), para mostrar como pequenos ajustes em seu posicionamento podem aumentar a altura do chute.

Quando aprendendo o chute lateral de levantamento de perna você deve começar com o levantamento de perna mostrado no artigo anterior (quinto) desta coluna, na Taekwondo Times de novembro de 1999. Este exercício (de levantar a perna para o lado) te permitirá eventualmente alcançar um chute lateral mais alto. Muitas pessoas sentem um pouco de desconforto, até mesmo de dor, quando tentando este alongamento dinâmico. Elas podem levantar cada perna cerca de 45º (e dói mesmo assim).

O problema? Elas tentam manter a perna reta, e levantar a perna reta lateralmente enquanto tentam manter o corpo inteiro reto também. Esta é tipicamente a causa das dificuldades e das dores nos quadris entre iniciantes que tentam dar este chute. Quem não é ensinado a levantar a perna corretamente ou a dar este chute em sua aplicação de combate tende a fazê-lo desta maneira incorreta.

Para aumentar substancialmente a altura do chute lateral de levantamento de perna, você precisa inclinar a sua pélvis para frente ao mesmo tempo que levanta sua perna para o lado. Para aprender a forma correta faça o seguinte: fique de pé com os pés juntos, estenda seu braço direito para o lado, com a mão à altura dos quadris, palma para baixo. Dobre levemente sua perna direita nas juntas do quadril e do joelho. Posicione seu pé corretamente para o chute lateral (pé de faca, sokuto, no Karate, e balnal, no Taekwondo). Levante a perna direita de forma a chutar a palma da sua mão com a lateral do seu pé. Comece na altura do quadril e aumente a altura dos chutes gradualmente. Certifique-se que você está se inclinando para a frente e de que seu joelho está levemente dobrado, e que ele se levanta à frente de seu pé. Chutar a palma da mão te força a alinhar seu tronco, sua pélvis e a coxa da maneira correta para uma maior amplitude de movimentos nas juntas do quadril. Preste atenção principalmente na direção e na curvatura da inclinação para frente nos desenhos abaixo.



Outro motivo para chutar a palma da mão é para evitar que o alongamento dinâmico se torne um alongamento balístico, sem controle, e para previr alongar além do necessário.

Por falar nisso, a causa da dor e da limitação do movimento lateral tanto no chute de levantamento de perna quanto na abertura lateral é a mesma. Ela é causada pelo abrir (abduzir) das coxas sem inclinar a pélvis para a frente. A "cura" para a dor no lado externo do quadril é inclinar a pélvis para a frente (o que é o mesmo que flexionar os quadris) enquanto tentando o chute lateral ou a abertura. O alinhamento do quadril, da parte inferior da perna e do pé no chute lateral deve ser o mesmo mostrado na visao lateral da posição de montar cavalo (veja o segundo artigo desta coluna na Taekwondo Times, maio de 1999).

Crianças abaixo dos 11 anos não experimentam esta limitação do movimento, pois o ângulo que o colo dos ossos da coxa fazem com os ossos dos quadris é diferente dos adultos. Em crianças, o colo do osso da coxa vai mais agudamente para baixo e mais suavemente para frente. Isso faz o colo da coxa ter contato com o canto superior da cavidade do quadril em uma maior amplitude de abdução do que em adultos, além de manter separado o trocanter do osso do quadril de forma a não restringir o movimento tanto quanto nos adultos. À medida que as crianças crescem, este ângulo gradualmente muda. O colo da coxa se torna mais próximo de um plano horizontal e gira mais para a frente. Estas mudanças reduzem a abdução da coxa, assim como sua rotação externa (também conhecida como "giro para fora" ou "primeira posição" no balé). Por volta dos 11 anos este ângulo se acomoda. Eu explico como esta rotação externa se relaciona com a abertura lateral na página 110 de Stretching Scientifically.

Como saber se você tem potencial para fazer uma abertura frontal

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Testando seu potencial para fazer uma abertura frontal

Tradução de Glauber Ataide

Este é o terceiro artigo de minha coluna sobre treinamento que apareceu na edição de maio de 1999 na revista Taekwondo Times

Para ler o artigo anterior, clique aqui

No primeiro artigo desta coluna você aprendeu como determinar se tem potencial para fazer uma abertura lateral, mesmo antes de começar seu programa de alongamento. Neste artigo você aprenderá se os ligamentos e a musculatura de suas coxas e quadris lhe permitem fazer uma abertura frontal.

Este é o teste para a abertura frontal: faça um longo agachamento (como na foto abaixo). Se suas coxas estão quase formando uma linha reta como em uma abertura frontal, isso significa que as juntas do seu quadril e os seus ligamentos não te impedem de fazer uma abertura frontal. Apenas um endurecimento de seu tendão do jarrete e dos músculos da panturrilha, e em alguns casos dos músculos iliopsoas podem te impedir de se sentar completamente em uma abertura frontal com ambas as pernas retas. Com o método correto de alongamento você irá relaxar, ou mesmo alongar estes músculos e será capaz de fazer a abertura frontal sem aquecimento.



Tanto na abertura frontal quanto na lateral, aliviando a tensão dos músculos ao redor das juntas aumenta  a amplitude de movimento delas, provando que é apenas a tensão muscular o que te previne de fazer aberturas. A tensão muscular tem dois componentes: a tensão gerada pelo elementos contráteis (fibras musculares) e a tensão presente em um músculo inativo, desnervado, exercida pelos tecidos conjuntivos associados ao músculo.

Alguns autores (M.J.Alter, B.Anderson, H.A.deVries, S.A.Sölveborn) afirmam que a tensão dos tecidos conjuntivos tendem a ser o principal fator que restringe a flexibilidade. Eles defendem alongamento estático lento, mesmo em um aquecimento, como se os músculos fossem peças de fábrica a serem alongado para o tamanho desejado. Ramsey e Street (1940), no entanto, provam e afirmam claramente que se o alcance da extensão não exceder a 130% do comprimento em repouso (30% a mais do que o comprimento em repouso), a tensão em repouso em um músculo não-contraído é muito pequena. (O comprimento em repouso de um músculo é o comprimento músculo não-contraído e não-alongado do corpo.)

De forma semelhante, Shottelius e Senay (1956) mostram que, em um músculo alongado acima dos 100% de seu comprimento em repouso, a tensão passiva gerada pelos tecidos conjuntivos é uma pequena fração da tensão devido à contração ativa. Eles mostram que eventualmente, a aproximadamente 120% do comprimento em repouso de um músculo, os dois componentes da tensão muscular contribuem igualmente para a tensão total. A comprimentos maiores, a tensão passiva aumenta enquanto a tensão ativa, gerada por fibras de músculos contraídas, diminui.

Para propósitos práticos, enquanto você sentir que seus músculos contraem em resposta a um alongamento, isso significa que relaxando-os você pode melhorar seu alongamento e que você deveria se preocupar mais com o controle nervoso da tensão dos músculos e menos com o tecido conectivo dos músculos. Este conceito é contundentemente mostrado no teste de abertura lateral publicado na edição de março de 1999 da revista Taekwondo Times.

Na próxima coluna você aprenderá sobre os tipos de flexibilidade e sobre o papel das aberturas no Taekwondo, Karate e no Kickboxing. (Se você acha que as aberturas são necessárias para chutar alto, você está errado.)