Confissão, de Charles Bukowski

Posted: 17.4.17 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Confissão
(Charles Bukowski)

À espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama

Sinto terrivelmente por
minha esposa

Ela verá este
corpo
duro e
branco

Vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:

"Hank!"

Hank não
responderá.

Não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.

Quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado

Que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas

E que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:

Eu te
amo.

A misologia, ou o ódio à razão

Posted: 7.4.17 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Misologia é um termo criado por Platão para indicar o ódio à razão, ou o ódio aos raciocínios. Segundo o discípulo de Sócrates, "a misologia nasce da mesma forma que a misantropia" (Fédon, 89 d-90 b). Assim como a misantropia nasce de se ter confiado em alguém sem discernimento, a misologia nasce de se ter acreditado, sem possuir a arte do raciocínio, na verdade de raciocínios que depois se mostraram falsos. A misologia se originaria de uma "desilusão" com a capacidade da razão.

No texto em questão, Sócrates, esperando em sua cela o momento de sua morte e conversando com alguns visitantes sobre a imortalidade da alma, adverte sobre o perigo da misologia, fazendo uma analogia entre esta e a misantropia, ou o ódio aos seres humanos. O que esta passagem parece sugerir é que, do ponto de vista moral, o ódio à razão seria tão condenável quanto o ódio às pessoas:

- Inicialmente, precavemo-nos contra certo perigo.
- Qual será? Perguntei.
- Para não ficarmos misólogos, disse, como outros ficam misantropos. O que de pior pode acontecer a qualquer pessoa é tornar-se inimigo da palavra [logos]. A misologia e a misantropia têm a mesma origem. O ódio aos homens nasce do excesso de confiança sem razão de ser, quando consideramos alguém fiel, sincero e verdadeiro, e logo depois descobrimos que se trata de pessoa corrupta e desleal, e depois outra mais nas mesmas condições. Vindo isso a repetir-se várias vezes com o mesmo paciente, principalmente se se tratar de amigos íntimos e companheiros de alto crédito, depois de decepções seguidas, acaba essa pessoa por odiar os homens e acreditar que ninguém é sincero. Nunca observaste que é assim mesmo que as coisas se passam?"

Na continuação do texto, as críticas que Sócrates fará à misologia são de cunho moral, classificando-a como "vergonhosa", "perversa", e algo contra o qual devemos nos prevenir. Para o filósofo de Atenas, seremos pessoas menos excelentes se passarmos a desprezar os argumentos como capazes de levar à verdade. A misologia, como Sócrates a compreende, é uma reação emocional à argumentação por parte de pessoas que não possuem as habilidades lógicas dialéticas ou a vontade de distinguir entre bons e maus argumentos.

O tema da misologia recebeu também a atenção, séculos mais tarde, de Kant, em sua obra Fundamentos da metafísica dos costumes. A misologia nasce, segundo o filósofo de Königsberg, quando se confia à razão a tarefa de obter "a fruição da vida e a felicidade", tarefa para a qual ela não está apta, uma vez que seu destino, como faculdade prática, é conduzir à moralidade" (Grundlegung der Metaphysik der Sitten, I).

Poucos anos mais tarde, a misologia foi brevemente mencionada também por Hegel em sua Enciclopédia das ciências filosóficas. Hegel relaciona o ódio à razão ao saber imediato:

Die Einsicht, daß die Natur des Denkens selbst die Dialektik ist, daß es als Verstand in das Negative seiner selbst, in den Widerspruch geraten muß, macht eine Hauptseite der Logik aus. Das Denken, verzweifelnd, aus sich auch die Auflösung des Widerspruchs, in den es sich selbst gesetzt, leisten zu können, kehrt zu den Auflösungen und Beruhigungen zurück, welche dem Geiste in anderen seiner Weisen und Formen zuteil geworden sind. Das Denken hätte jedoch bei dieser Rückkehr nicht nötig, in die Misologie zu verfallen, von welcher Platon bereits die Erfahrung vor sich gehabt hat, und sich polemisch gegen sich selbst zu benehmen, wie dies in der Behauptung des sogenannten unmittelbaren Wissens als der ausschließenden Form des Bewußtseins der Wahrheit geschieht.

Traduzo:

O ponto de vista de que a natureza do próprio pensar é a dialética, que ele, enquanto entendimento no negativo de si mesmo, deve ser levado à contradição, constitui uma parte principal da Lógica. O pensamento, desesperado para poder resolver fora de si a solução da contradição na qual é colocada, se volta para soluções e pacificações, das quais ao Espírito, em outras formas, em parte se tornou. Neste retorno o pensamento não teria, no entanto, que cair na misologia, da qual Platão já tinha tido a experiência, e se comportar polemicamente contra si mesma, como se passa na afirmação do chamado saber imediato como exclusiva forma de consciência da verdade.

O saber imediato é o saber que corresponde, por exemplo, à fé em Deus. É um saber que, ao contrário do saber mediado, afasta todas as dependências, os condicionamentos, as determinações, a forma da reflexão. O saber imediato não considera as diferenças, as interdependências, mas apenas a forma subjetiva, apenas o "isso é".

O pensamento, diante das contradições que lhe são colocadas pela própria natureza de sua atividade, busca, inicialmente, um retorno a formas anteriores nas quais essas contradições ainda não estavam colocadas. Diante de posições entre as quais não consegue decidir, o pensamento fica desesperado. É interessante o termo alemão utilizado neste trecho para "desesperado", que é verzweifelnd. A raiz deste adjetivo é zwei, que significa "dois". O desespero, neste sentido, vem sempre da incapacidade de decidir, de escolher, de tomar uma decisão,e por isso a consciência tenta acabar com este conflito retornando para um momento anterior em que o conflito não existia. Este movimento de retorno, contudo, não precisa necessariamente desaguar no ódio à razão em geral, afirma Hegel. O pensamento é essencialmente dialético, contraditório, e a misologia seria uma fuga e uma revolta contra a própria natureza do pensar.

Nietzsche e "Deus como aranha"

Posted: 6.4.17 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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"O conceito cristão de Deus – Deus como Deus dos doentes, Deus como aranha, Deus como espírito – é um dos mais corruptos conceitos de Deus que sobre a Terra se obtiveram: representa até, possivelmente, o mais baixo nível da evolução declinante do tipo divino. Deus degenerado em contradição com a vida, em vez de ser a sua glorificação e o seu eterno sim! Expresso em Deus o ódio à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus, a fórmula para toda a difamação do 'aquém', para toda a mentira do 'além'! O nada divinizado em Deus, a vontade do nada santificada!..." (Nietzsche, O Anticristo)

No aforismo XVIII de O anticristo, Nietzsche usa uma imagem peculiar para se referir ao conceito cristão de Deus: a aranha. É uma imagem forte, de impacto, e que em uma primeira leitura de sua obra nos detém por alguns segundos indagando: por que seria Deus uma "aranha"? Qual a relação entre as duas coisas?

O que o filósofo alemão quer expressar com isso se torna mais claro ao lermos o trecho no idioma original da obra e também o último parágrafo do aforismo anterior.

A primeira frase do aforismo com que iniciamos este texto, em alemão, é:

"Der christliche Gottesbegriff — Gott als Krankengott, Gott als Spinne, Gott als Geist — ist einer der korruptesten Gottesbegriffe, die auf Erden erreicht worden sind..."

Como podemos ver destacado em negrito, a palavra alemã para "aranha" é Spinne, e o que Nietzsche está fazendo aqui é um jogo de palavras entre este termo e o nome do filósofo holandês Spinoza.

Esta relação já estava explicitada no último parágrafo do aforismo anterior (17), o qual reproduzimos abaixo:

"Mas o Deus do 'grande número', o democrata entre os deuses, não se tornou todavia um orgulhoso deus pagão: permaneceu judeu, continuou a ser o deus das esquinas, o deus dos recantos e lugares escuros, de todos os bairros insalubres do mundo inteiro!... O seu reino universal é, agora como dantes, um reino de submundo, um hospital, um reino-soutérrain, um reino-gueto... E ele próprio tão pálido, tão fraco, tão décadent... Até os mais pálidos de entre os pálidos dele se tornaram senhores, os senhores metafísicos, os albinos do conceito. Estes teceram durante tanto tempo em seu redor que, hipnotizado pelos seus movimentos, ele próprio se transformou em aranha, ele próprio se tornou metafísico. Então, voltou a desfiar o mundo a partir de si – sub specie Spinozae. Transfigurou-se então em algo cada vez mais ténue, mais pálido, fez-se 'ideal', 'espírito puro', 'absolutum', 'coisa em si'... A ruína de um Deus: Deus tornou-se 'coisa em si'..."

Neste trecho Nietzsche está falando sobre a decadência do conceito judaico de Deus. A ideia de Deus foi se tornando cada vez mais fraca, mais pálida, etérea, até que praticamente se dissolveu, tornando-se "o nada divinizado". Nietzsche afirma que Deus se transformou então em aranha, mas não uma aranha qualquer: ele se tornou uma aranha sub specie Spinozae.

A referência de Nietzsche é ao conceito de Deus desenvolvido pelo filósofo holandês Baruch de Spinoza, que também era judeu. Associa-se geralmente a ele uma espécie de panteísmo, uma identificação de Deus com a natureza, embora esta interpretação seja contestada por alguns estudiosos de Spinoza. Dessa forma, Deus, sendo tudo, é ao mesmo tempo nada, pois é  indistinto de qualquer coisa em particular. Como articulou Hegel em sua Ciência da Lógica, "o ser e o nada são o mesmo". O puro ser, a pura abstração, é também o nada.

O Deus aranha de Nietzsche é um deus metafísico, um espírito puro que acabou se tornando "coisa em si". Esta última referência é a Kant, embora seja importante ressaltar que, para o filósofo de Königsberg, Deus não é "coisa em si", mas sim uma "ideia da razão". Para Nietzsche, os metafísicos, ao passar dos séculos, se apropriaram, tornaram-se "senhores" do conceito de Deus e trabalharam tanto nele, "teceram durante tanto tempo em seu redor", que o próprio Deus foi "hipnotizado pelos seus movimentos" e acabou se transformando em uma aranha da espécie Spinozae.

Nietzsche sobre a vingança cristã - uma breve observação

Posted: 16.2.17 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Nas últimas semanas, relendo o livro de Apocalipse, me foi impossível não levar em conta algumas observações de Nietzsche sobre o cristianismo. Uma passagem que me chamou a atenção foi a seguinte: 

"E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?" (Apocalipse 6:9,10)

Destaque para este pedido de "vingança". Vejam bem, não se trata apenas de "justiça", mas a vingança é explicitamente mencionada. Como poderiam estas almas, já no céu e diante do trono de Deus, ainda serem movidas por sentimentos tais como o de vingança? 

Segundo Nietzsche, nada poderia ser mais "unevangelische", ou, traduzindo, "menos evangélico", do que este sentimento de vingança. Na leitura do filósofo alemão, aqui já se manifesta a clivagem entre o espírito dos ensinamentos de Jesus e a religião que se construiu em seu nome, a religião da decadência e do ressentimento.

Vejam este trecho:

"Com a sua morte, Jesus nada mais podia querer do que proporcionar publicamente a prova mais forte, a demonstração da sua doutrina... Mas os seus discípulos estavam longe de perdoar tal morte – o que teria sido evangélico no sentido mais elevado; ou de se oferecer até para uma morte semelhante, em suave e amável tranquilidade do coração... Foi justamente o sentimento menos evangélico, a vingança, que de novo se sobrepôs a tudo. Era impossível que a causa terminasse com esta morte: era necessária uma 'retaliação', um 'juízo' (e, no entanto, que poda haver de mais anti-evangélico do que 'retaliação', 'castigo', 'montar um processo'!). (Nietzsche, "O anticristo")

Esta passagem de Apocalipse que citamos anteriormente não é a única que fala sobre a vingança. Nietzsche parece ter fornecido uma interessante chave hermenêutica para o novo testamento.

A ciência refuta a religião?

Posted: 15.1.17 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Certa vez, conversando sobre ciência e religião com alguns rapazes formados na área de exatas, comentei que estudava uma ou outra coisa de teologia, pois achava importante ter uma noção mínima de qualquer assunto sobre o qual se queira tentar construir uma opinião. Um deles me respondeu dizendo que achava que isso não era necessário, pois a ciência já "refutava" a religião. Ou seja, ele quis dizer que em um debate entre duas partes, conhecer apenas uma delas já é suficiente para decidir por sua adesão. O que ele mostrou com isso foi ter uma postura dogmática. Na verdade ele apenas "confia" em um dos lados. Alguns chamam isso de "fé".

Geralmente apenas os religiosos são acusados de dogmatismo, mas isso não é sua exclusividade. Com a vulgarização da ciência e a difusão do fenômeno que Adorno chamou de semiformação (Halbbildung), formou-se uma legião de cruzados da ciência que, do alto de seu dogmatismo, declara guerra profana à religião. Neste aspecto, porém, eles não são melhores que seus adversários.

Para além desta questão propedêutica de honestidade intelectual - comum a qualquer debate -, o que neste em particular chama por atenção reside na própria natureza da discussão. Não nos parece que a ciência "refute" a religião. O que a ciência parece fazer é refutar as pretensões científicas da religião quando esta ultrapassa seus limites e tenta competir com a ciência na explicação do mundo natural.

Nos últimos 5 séculos, com o desenvolvimento da ciência no ocidente, o que se observou foi um recuo progressivo da religião para dentro de seus domínios de direito. A religião tentava dar conta da origem do universo, do homem, das leis morais, etc. Isso é, ela tentava ser uma explicação holística, integrada, de toda a realidade. Com a revolução copernicana, com as leis descobertas por Isaac Newton e principalmente após as descobertas de Darwin, a religião recuou cada vez mais de suas pretensões de cientificidade mas continuou coexistindo - não sem conflitos - lado a lado com a ciência. Esta relação mostra que a ciência não toca no essencial da religião. É por isso que várias denominações cristãs agora admitem, sem nenhum problema, a validade do darwinismo. A seleção natural foi, segundo elas, o mecanismo através do qual Deus trouxe o homem ao mundo. Gênesis não deve ser interpretado literalmente, mas tendo apenas valor teológico. A religião, assim, continua de pé, tendo incorporado agora as mais novas descobertas da ciência.

A ciência trata de fenômenos da experiência, e Deus, o principal objeto da religião, não é dado na experiência. Qual área da ciência poderia dizer qualquer coisa sobre Deus? A física? A química? A biologia? A astronomia? Nenhuma delas. Qual área da ciência poderia "refutar" os principais postulados metafísicos da religião? Ora, se são metafísicos, isso significa que estão além da experiência, e a ciência simplesmente não pode dizer nada sobre o que está além da experiência.

O trabalho de refutação dos postulados metafísicos da religião só pode se dar através de uma crítica da metafísica, e isso é tarefa da filosofia, não da ciência. Ademais, este trabalho só pode ser negativo, já que não é possível provar a inexistência de qualquer coisa. É necessário mostrar, como fez Kant, os limites do que é possível conhecer, a arquitetônica de nossa razão e por que somos levados a formular determinados conceitos devido à estrutura da razão e do entendimento. Por que, por exemplo postulamos o sistema de causa e efeito, por que nossa razão leva necessariamente a uma ideia de absoluto, etc.

A luta entre ciência e religião é como uma luta entre um ser material e um fantasma: as armas da ciência atravessam o espectro da religião sem atingi-la. Aqueles que defendem a "vitória" da ciência sobre a religião ainda não entenderam a natureza do debate, e sua adesão à ciência não é menos dogmática que a de seu oponente à religião.

Glauber Ataide

Lukács e a consciência de classe

Posted: 7.1.17 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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No vídeo abaixo, faço uma breve apresentação sobre o conceito de consciência de classe em Lukács.


Learning from books vs. learning from experience

Posted: 26.12.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Learning how to learn is a question of general interest, since everybody is learning something new every day. People want to be good at what they learn, but one cannot achieve this goal without putting the question as to the best way to learn a specific subject matter. When should one be more practical, and when should one be more theoretical? Not everything is contained in books, but not everything can be learned from experience alone as well. 

Knowledge gained from theoretical books are usually the appropriation of systematized series of observations made by different people, while knowledge from experience comes from fewer individual observations made by a single person.  Scientific books, for example, are usually written summing up experiences of many individuals, trying to be as objective as possible. On the other hand, when one learns something only by his\her own practice, he\she has a limited number of personal, subjective experiences, before establishing his\her conclusions. When one writes down what he or she has learned only by personal experience, the result is not a scientific treatise, but a biography, for example. Knowledge gained from experience tends to be more contingent, while knowledge gained from theoretical books tends to seek universality.

Another difference between these two ways of learning is that theoretical knowledge gained from books gives us orientation to observe the real world of experience, but knowledge gained from experience, in its turn, might correct our theories about the world. Science works that way. If a scientist must look to a given phenomenon, how can he\she know beforehand what is important to observe in that specific case? Is it important, for example, to take into account the size of a laboratory when observing the behavior of radio waves? At first, it might seem that the size of the lab does not matter. However, an experiment once showed that the waves’ circulation was changed after hitting the walls of the lab, and that different results could be obtained depending on the size of the room. Philosophy of Science has since then highlighted that experience guides theory, but theory also guides observation of experience.

Finally, knowledge from books are more appropriate to certain objects or fields of study, while knowledge gained from experience is more appropriate to others. Plato discussed this question in his dialogue “Meno”, in which he asked the question whether virtue can be taught. Virtue, in Greek, is “arête”, which means “excellence”.  Plato pointed out that political excellence, for example, could not be taught, since great political leaders, like Pericles, for instance, could not teach their ability to their own sons, although these same men could teach them how to ride a horse or how to fight with swords. This seems to indicate that some things can be learned only by personal experience, but that others, on the contrary, are in fact teachable, i.e., can be learned from books. The object of study determines when learning from books is most suitable and when learning from experience is the best choice.

Neither can everything be learned from books, nor can everything be learned from experience alone. Learning gained from books, or theoretical knowledge, seeks universality, guides the observation of experience and applies only to teachable subject matters. Learning gained from experience, or practical knowledge, in its turn, is restricted by subjectivism and to teachable subject matters, although they can correct general theories about the observation of the natural world.

Glauber Ataide

A imutabilidade de Deus em "A República", de Platão, e a análise lógica de Boole

Posted: 7.9.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Argumentos longos e complexos constituem um desafio à verificação de sua formação e validade, demandando tempo, atenção e rigor para que sejam testados. Apresentamos, abaixo, um exemplo de como aplicar uma análise lógica em um argumento extenso a fim de verificar sua coerência. O texto foi extraído do Livro II de A República, de Platão, e apresenta um diálogo entre Sócrates e Adimanto, no qual o filósofo de Atenas argumenta que Deus é imutável. Logo após apresentamos a formalização deste argumento realizada pelo lógico George Boole, já no século XIX, a qual revela a impecável  forma do raciocínio de Platão.

Sócrates — Vejamos agora a segunda regra. Acreditas que Deus seja um mágico capaz de assumir, perfidamente, formas variadas, ora de fato presente e transformando a sua imagem numa infinidade de figuras diferentes, ora enganando-nos e mostrando de si mesmo apenas simulacros sem realidade? Não será antes um ser simples, de todo incapaz de deixar a forma que lhe é própria?
Adimanto — Não sei o que responder-te.
Sócrates — Não concordas, ao menos, em que, se um ser deixa sua forma que lhe é própria, tal transformação deve, forçosamente, provir de si mesmo ou de outro ser?
Adimanto — Sim, sem dúvida.
Sócrates — Pois bem, as coisas melhor constituídas não são as menos sujeitas a ser alteradas e movidas por uma influência estranha? Pensa, por exemplo, nas alterações causadas no corpo pelo alimento, pela bebida, pela fadiga, ou na planta pelo calor do Sol, pelo vento e por outros acidentes que tais; o indivíduo mais são e vigoroso não é o menos atingido?
Adimanto — Sim.
Sócrates— E, da mesma maneira, não é a alma mais corajosa e sábia a que menos é perturbada e alterada pelos acidentes exteriores?
Adimanto — Por certo.
Sócrates — Pelo mesmo motivo, de todos os objetos produzidos pelo trabalho humano, edifícios, vestuário, se forem bem confeccionados e em bom estado, alterar-se-ão o mínimo por efeito do tempo e dos demais acidentes.
 Adimanto — E exato.
Sócrates — Em geral, todo o ser perfeito, que tira a sua perfeição da natureza, da arte ou das duas, está menos sujeito às transformações vindas de fora.
Adimanto — Assim é.
Sócrates — Mas se Deus é perfeito, tudo que se refere à sua natureza é em todos os aspectos perfeito?
Adimanto — Sem dúvida.
Sócrates — Assim, pois, Deus é o menos sujeito a receber formas diferentes.
Adimanto — Certamente.
Sócrates — Seria, então, por si mesmo que Ele mudaria e se transformaria?
Adimanto — Evidentemente, seria por si mesmo, se é certo que Ele sofre tais mudanças.
Sócrates — Mas Ele toma uma forma melhor e mais bela ou pior e mais feia?
Adimanto — Forçosamente, toma uma forma pior, porque não seria apropriado dizer que falta a Deus algum grau de beleza ou de virtude.
Sócrates — Muito bem. Mas, se assim é, acreditas, Adimanto, que um ser se torna voluntariamente pior em qualquer aspecto que seja — quer se trate de um deus, quer de um homem?
Adimanto — E impossível.
Sócrates — Então, também é impossível que um deus concorde em transformar-se; sendo cada um dos deuses o mais belo e o melhor possível, permanece sempre na forma que lhe é própria.

Análise lógica do argumento realizada por Boole:

- Se Deus muda, então Deus é mudado por Deus ou Deus é mudado por outrem.
- Se Deus está no melhor estado, então Deus não é mudado por outrem.
- Deus está no melhor estado
- Se Deus é mudado por Deus, então Deus é mudado para um estado pior.
- Se Deus age de livre vontade, então Deus não é mudado para um estado pior.
- Deus age de livre vontade.
- Deus não muda.

A = Deus muda
B = Deus é mudado por Deus
C = Deus é mudado por outrem
D = Deus está no melhor estado
E = Deus é mudado para um estado pior
F = Deus age de livre vontade

A → (B ∨ C)
D → ¬ C
D
B → E
F → ¬ E
F
______________
¬ A


A análise de Boole chega a ¬ A, ou "não Deus muda", que é exatamente a conclusão de Sócrates: "Então, também é impossível que um deus concorde em transformar-se; sendo cada um dos deuses o mais belo e o melhor possível, permanece sempre na forma que lhe é própria."

O bom nazista

Posted: 3.9.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Talvez não seja nenhum exagero afirmar que a maioria dos nazistas eram boas pessoas. Em sua intimidade, em sua vida familiar ou em sua relação com os vizinhos, talvez aquelas multidões que vemos nos registros das manifestações nazistas fossem compostas, em quase sua totalidade, por pessoas honestas, trabalhadoras, solidárias, bons pais, boas mães, bons vizinhos e bons filhos. A imagem que temos dos nazistas como monstros me parece uma simplificação grosseira do fenômeno.

O mecanismo psicológico que leva alguém a tratar nazistas como monstros é rudimentar, primitivo, arcaico, e um de seus usos pode ser observado, por exemplo, na construção das histórias infantis. É característico dos contos de fadas representarem seus personagens de maneira inequívoca, sem ambiguidades de caráter. Tendo como principal público as crianças, ainda psicologicamente incapazes de discernir nuances nas personalidades dos caracteres, a inteligibilidade desses contos exige que uma bruxa má, por exemplo, seja somente má, e que uma fada boa, por sua vez, seja o tempo todo boa. Uma bruxa que fosse boa em algum aspecto de sua vida social, mas malvada em outros, não seria compreendida pelos pequeninos.

Esta estereotipagem maniqueísta entre indivíduos bons e maus, normais e desequilibrados, que quase nunca ocorre na vida real, impregna também a maneira como o nazismo, um dos fenômenos mais complexos da história do século XX, é retratado, compreendido, divulgado e assimilado. O frequente recurso à psicologia para tentar explicar este movimento político como derivado de distúrbios psíquicos de alguns de seus líderes – Hitler e seus consortes - é uma resposta fácil, reconfortante e ao mesmo tempo errada a uma questão que não admite ser reduzida apenas aos seus aspectos psicológicos ou éticos.

A imagem de nazistas como monstros ou como indivíduos totalmente diferentes de todas as pessoas que conhecemos nos torna incapazes de identificar, detectar, reconhecer o perigo do fascismo que pode estar à espreita. Um bom pai, uma boa mãe ou um sujeito caridoso que regularmente dá esmola aos pobres jamais se reconhecerá - e nem será reconhecido pela maioria - como um fascista, mesmo que defenda todas as bandeiras do fascismo. A estereotipagem hollywoodiana e das revistas baratas de semicultura que povoam as bancas de jornais nada esclarecem sobre o assunto. (Imagino que análises da grafia de Hitler e de seus supostos traumas de infância vendam muito bem, pois revistas com estes temas praticamente não saem das bancas, sempre recebendo novas edições.) O que essas publicações fazem ao divulgar tais análises psicologizantes é um desserviço à história, pois o esvaziamento do nazismo de seu teor político cede espaço tanto para o irracionalismo quanto para uma reedição do fenômeno.

Do ponto de vista psicológico e individual, não se pode dizer que cada nazista era um monstro, alguém muito diferente de nós. Adolf Eichmann, um oficial nazista corresponsável pela deportação e morte de milhares de judeus, foi julgado em Jerusalém no ano de 1961. A filósofa alemã Hannah Arendt, que cobria seu julgamento como correspondente do jornal The New Yorker, se surpreendeu ao perceber que Eichmann não era nenhum "monstro" tal como ela esperava. Cerca de meia dúzia de psiquiatras o avaliaram e concluíram que ele era alguém absolutamente normal, com um perfil psicológico até “desejável”. Eichmann era um bom pai, um bom marido, um bom amigo, um bom filho e tinha ideias “altamente positivas”, como afirmou um ministro que lhe visitava com frequência na prisão. Um dos psiquiatras teria dito que Eichmann era mais normal do que ele próprio ficou depois de tê-lo analisado.

Hannah Arendt afirmou que, a despeito de todos os esforços da acusação, todos puderam perceber durante o julgamento que Eichmann não era um “monstro” (embora fosse difícil não suspeitar que fosse um palhaço, o que acabou sendo ignorado por causa da gravidade dos seus atos). Quanto mais se ouvia o que ele tinha a dizer, mais óbvio se tornava que sua inabilidade em falar estava estreitamente relacionada com sua inabilidade de pensar, isso é, de pensar a partir da perspectiva do outro.

O nazismo é divulgado na cultura de massa como uma ameaça distante tanto no tempo quanto no espaço, protagonizado por caracteres totalmente diferentes de nós. Chega a ser algo exótico. Assistir a certos documentários sobre o nazismo é quase como assistir a documentários sobre extraterrestres ou sobre o império romano. E esta desumanização dos nazistas, o fato de considerá-los "monstros" e não humanos, esconde, oculta, mascara o fascismo nosso de cada dia.

Em outubro de 2015, um conhecido dirigente do PT (Partido dos Trabalhadores) faleceu e estava sendo velado na cidade de Belo Horizonte. Manifestantes de direita foram até o local com cartazes ofensivos e despejaram grande quantidade de panfletos políticos contra o partido do defunto. A notícia de tal desrespeito à família chocou a todos os cidadãos de bom senso, a todos aqueles que entendem que a morte nivela, iguala a todos, independente das opções políticas. Um ato como este, que não respeita nem mesmo a morte de um ser humano que tinha ideias políticas divergentes, não é apenas uma demonstração de desumanização do falecido, mas revela um processo de desumanização em curso nos próprios manifestantes. Havia entre estes algumas senhoras que, podemos pensar, talvez até tenham a simpatia de seus vizinhos. Podem ser pessoas boas em vários aspectos de nossa multifacetada vida social, em vários dos papeis sociais que desempenhamos: mãe, avó, vizinha, etc. Elas próprias, contudo, jamais se identificariam com os históricos nazistas alemães, pois estes (elas também devem pensar assim) eram monstros, gente muito diferente de todo mundo que conhecem. Elas, ao contrário, certamente se enxergam como pessoas boas, cheias das melhores intenções em sua busca por um "futuro melhor" para o país.

A desumanização do nazismo é perigosa porque mascara que ele está entre nós. Ao transformar Hitler em monstro sobram poucos candidatos ao título, e parte desses já estaria fora de circulação - ou no hospício ou na cadeia. É preciso compreender que não há contradição em ser uma boa pessoa, ter alta cultura e ser um fascista ao mesmo tempo. Eichmann impressionou Hannah Arendt porque era uma pessoa extremamente normal, comum. Era um burocrata de escritório que obedecia a ordens, incapaz de pensar e de se colocar no lugar do outro. Ele jamais reconheceu que havia feito algo errado pois, em sua consciência, apenas “cumpria ordens” que eram legais em seu país. E nisso ele nos lembra os burocratas de empresas e outros lacaios dos capitalistas, os quais estão sempre apenas "cumprindo ordens", sem questionar. Quando questionados, apenas respondem que "é assim", como se não tivessem consciência e nem responsabilidade sobre o que fazem.

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Para conhecer o bom nazista da foto que ilustra este post, veja esta matéria: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2010/aug/28/martin-davidson-grandfather-perfect-nazi

Psicanálise: clínica & pesquisa

Posted: 2.9.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Em Psicanálise: clínica & pesquisa, Luciano Elia se propõe a demonstrar em que medida a pesquisa se impõe à prática em psicanálise, revelando como a pesquisa é uma dimensão essencial da práxis analítica. Além disso, o autor articula o conceito de sujeito na ciência e na psicanálise e discorre sobre diversos aspectos sócio-econômicos implicados em uma concepção teórica elitista da psicanálise. 

A psicanálise é uma ciência?

Um importante aspecto a se considerar na questão é que a psicanálise deriva da ciência, mas não se reduz a ela. Apesar da aspiração de Freud a que a psicanálise fosse reconhecida como uma ciência, do ponto histórico em que estava não lhe era possível extrair todas as conseqüências desse seu passo. Lacan então interroga: que ciência poderia incluir a psicanálise?

A resposta é que nenhuma das ciências é capaz de responder à questão que a psicanálise lhes coloca, constituído esta, então, uma derivação e uma ultrapassagem da ciência. A psicanálise, segundo demonstrado por Lacan, é um saber inteiramente derivado, porém não integrante do campo científico, e tudo isso devido à introdução do sujeito pela psicanálise na cena discursiva, sujeito este que foi excluído da ciência.

O sujeito na ciência foi inventado por Descartes, mas é um sujeito sem qualidades, sejam sensoriais, perceptuais, anímicas, morais, enfim, numa palavra, empíricas. É um sujeito sem qualidade alguma.
Dizer, portanto, que a psicanálise deriva da ciência seria dizer que o sujeito com o qual se opera em psicanálise – o sujeito do inconsciente - é um sujeito sem qualidades. O sujeito da psicanálise só pode ser incluído como sujeito do inconsciente.

Ao considerar que há um modo peculiar de fazer pesquisa em psicanálise, entramos no terreno do método. E a questão crucial deste método é a inclusão do sujeito em toda a extensão, e em todos os níveis – saber teórico, prática clínica, atividade de pesquisa, etc. Toda e qualquer pesquisa em psicanálise é, assim, necessariamente uma pesquisa clínica.

A psicanálise e sua extensão social

O lócus específico do exercício clínico psicanálise tem sido o consultório particular. No entanto, a concepção deste consultório como lugar, na maioria das vezes, exclusivo de se fazer psicanálise, deve ser colocado em questão.

A concepção do setting analítico, decorrente dessa característica do consultório particular, teve como uma de suas conseqüências a elitização da psicanálise, sua restrição a determinadas camadas sociais que tem acesso à configuração clássica denominada consultório particular. Procede-se como se os princípios teóricos clínicos e éticos da psicanálise autorizassem avalizassem e até exigissem certas condições ditas “técnicas” para o exercício da prática psicanalítica, como uma configuração logística eivada de pré-requisitos socioeconômicos, políticos e ideológicos, pertinência às classes de renda mais elevada, etc.

Mas a utilização de algum rigor no exame da questão revela rapidamente o grau dessa deformação, afirma Elia. Pelo fato de a psicanálise introduzir no campo do saber a dimensão do homem inconsciente, uma conseqüência fundamental é a seguinte: o sujeito do inconsciente não é um sujeito empírico, dotado de atributos psicológicos, sociais, políticos, ideológicos ou afetivos. Enquanto tal, ele é sem atributos. E o próprio Freud, em diversos momentos, coloca o sujeito acima de suas configurações ou inserções sociais, o que demonstra que a elitização da psicanálise foi um desvirtuamento precoce.

É possível fazer psicanálise em qualquer estrato social, em qualquer ambiente institucional (não apenas no clássico setting analítico, que deve ser interpretado, de acordo com Lacan, como um lugar estrutural, e não físico), desde que haja analista, de um lado, e sujeito dividido, de outro. O elitismo é demonstrado, portanto, como impossível numa postura rigorosamente psicanalítica.

O fato de a psicanálise se manter ainda reduzida a determinada extensão social persiste porque os analistas aderem a uma configuração do dispositivo analítico decorrente de um processo de imaginarização das condições de análise, que se relacionam no mais alto grau a uma ideologização da prática psicanalítica a partir de sua inserção no sistema capitalista.

Psicanálise e universidade

A psicanálise é relativamente recente tanto na universidade quanto no mundo. No entanto, a partir de Lacan, viu-se que ela não poderia definir-se como especialidade médica, abrindo assim seu exercício a outros agentes. No Brasil isso ocorreu de tal forma que a maioria dos psicanalistas hoje são psicólogos. A psicanálise passa hoje, portanto, por uma desmedicalização juntamente com uma deselitização. E tais efeitos não deixam de se relacionar com a inserção da psicanálise na universidade.

O discurso analítico, segundo Lacan, pode habitar a universidade sem prejuízo ou deterioração para si ou para as práticas universitárias.