O que é amor platônico?

Posted: 29.4.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O amor platônico não é um amor idealizado, distante, em que o amante não revela seu desejo à pessoa amada, sem contato físico ou relação sexual. Esta visão do amor, na verdade, devemos muito mais ao romantismo do que propriamente a Platão1.

Para compreendermos o que o filósofo grego entendia por amor, voltemo-nos para a obra em que ele mais se ocupa do tema, que é O banquete. O livro tem este título porque o diálogo se passa literalmente em um "banquete", no qual vários convidados estão discutindo o tema do amor e apresentando suas opiniões. A tradução  "banquete", porém, é enganosa, pois o nome grego original é "Symposia", que se referia a um tipo de festa na antiga Atenas que não envolvia a consumação de comida, mas apenas de bebidas. As pessoas comiam antes de participar destes eventos, chegando lá já satisfeitos. Em português, o termo "banquete" se refere principalmente à comida, o que acaba encobrindo e desvirtuando um pouco o significado original. 

Nestes "simpósios", os convidados bebiam, conversavam e se divertiam na companhia de cortesãs que aumentavam a temperatura sexual do ambiente. Havia também pelo menos um flautista que fazia música de fundo, e os convidados passavam de boca em boca taças de vinho algumas vezes decoradas com imagens eróticas. Não se sabe ao certo o quanto de relações sexuais havia nestes eventos, mas é certo que a atmosfera era de conversa relaxada e tensão erótica ao mesmo tempo.

O "simpósio" de Platão, contudo, é um pouco diferente dos simpósios reais de sua época. Em sua obra, os participantes já começam estando de ressaca por causa de uma celebração realizada no dia anterior, e eles decidem não beber muito naquele dia. O flautista é mandado embora, não há cortesãs e a conversa não é espontânea, já que cada um deve fazer um discurso sobre um tema pré-escolhido: o amor.

Cada um dos participantes apresenta, então, um discurso sobre o amor. Um dos mais interessantes é o de Aristófanes, famoso na Atenas de sua época e autor da obra As nuvens. Segundo o mito que ele apresenta, os humanos eram inicialmente divididos em três espécies, ou três tipos: homens, mulheres e andróginos (seres que possuíam ambos os sexos). Certo dia, devido à arrogância que os levou a atentar contra os deuses, os humanos foram punidos por Zeus e divididos ao meio. Desde então, cada um busca sua outra metade, de modo que os que eram totalmente homens buscam sua outra metade homem, os que eram totalmente mulheres buscam sua outra metade mulher, e os que eram andróginos buscam sua outra parte do sexo oposto. Este mito de Aristófanes explicaria por que cada um busca se "completar" no amor, ou seja, mostra que o objetivo do amor é encontrar a outra metade há muito perdida.

Sócrates é o último a falar. O discurso apresentado pela boca do filósofo grego é, provavelmente, a própria versão de Platão sobre o tema. Segundo Sócrates, o amor (Eros) é filho de Poros (recurso, riqueza, fartura) e Penia (pobreza, necessidade, falta), tendo os atributos de ambos. De maneira geral, o que Sócrates afirma é que a isca do amor é a beleza. Eros incita os amantes pelo atrativo da beleza, de modo que, no início de um relacionamento, é a beleza dos corpos o que atrai primeiro. A beleza é aquilo que se percebe e se sente antes ser capaz de pensar, de refletir, de raciocinar. É algo automático, inconsciente, involuntário. A beleza não é, contudo, apenas a isca: ela é, no final das contas, tudo o que o amor busca, e não apenas no amor sexual, mas em todas as áreas da vida.

A beleza se faz presente não apenas em um amante, mas em vários corpos, os quais podem ser amados ao longo de um tempo ou simultaneamente. A isca é literalmente a beleza. Em épocas de relacionamentos através de aplicativos isso é muito claro: pela tela de um smartphone escolhe-se, pela foto apenas, um potencial parceiro. O que importa neste primeiro momento é apenas a imagem, a forma física, a beleza, sem conhecer nada mais do indivíduo, sem nem ao menos ouvir sua voz.

Todos os corpos belos são perecíveis, e o que os amantes buscam, no final das contas, é a beleza duradoura. O que querem as pessoas ao buscar diversos parceiros belos no decorrer de toda uma vida? Eles buscam aquilo que é partilhado por todos os corpos belos, que é a própria forma do Belo. O Belo em si não é encontrado, todavia, por um processo de abstração. Esta é uma leitura muito comum e equivocada que se faz de Platão. Para o filósofo grego, o Belo não é um conceito, ou apenas uma entidade linguística ou mental. O Belo é, na verdade, um eidos, uma forma, uma essência, com existência que não é a existência de um conceito, como em Aristóteles. O Belo tem estatuto ontológico para Platão.

Quando os amantes percebem que eles próprios são perecíveis, e que também o amor é, de certa forma, finito, eles começam a trabalhar no sentido de superar essa finitude. O amor, enquanto trabalho de Eros, não é apenas o amor ou o desejo do Belo, mas o desejo de "dar à luz no Belo", o que pode ser feito tanto no amor heterossexual quanto no homossexual. No amor heterossexual, pode-se gerar o Belo a partir do Belo, ou seja, ter filhos. A procriação é a forma mais próxima que um ser mortal pode chegar da perpetuidade e da imortalidade. Ter filhos é uma maneira de o mortal imitar o imortal. Diotima explica a Sócrates que, ao observarmos a natureza, vemos como os animais, ao serem tomados pelo desejo de procriar, caem vítimas de uma grande paixão que os leva, em primeiro lugar, a unir macho e fêmea e, depois, a fazerem de tudo para sustentar suas crias, enfrentando quaisquer que sejam os perigos. Já no amor homossexual, dá-se à luz no Belo através de grandes façanhas culturais, uma espécie de sublimação freudiana. O amor homossexual, na visão de Platão, seria culturalmente mais rico, mais produtivo. Essas belezas geradas pelo amor seriam, por exemplo, as leis de uma cidade, a poesia clássica, as artes, as ciências, etc. Os filhos deixados por Homero e Hesíodo, por exemplo, foram suas obras literárias, as quais lhes deram fama e glória imortais. Um artista, ao produzir uma obra de arte, coloca parte de seu ser em sua criação espiritual, de modo que algo dele permanece mesmo após sua morte.

O amor platônico seria, portanto, um amor impulsionado por Eros em todos os momentos, em todas as áreas da vida, e por isso nunca deixaria de ser erótico. Sendo um amor erótico, ele envolve a conjunção carnal, a relação sexual, e não tem a ver com a visão comum produzida pelo romantismo de que seria um amor que ficaria apenas no "mundo das idéias". O que está realmente em jogo no amor platônico é que o desejo de "dar à luz no Belo", impulsionado por Eros, filho de Poros e Penia, leva os amantes à busca do belo e do saber. O amor platônico, para resumir, é um amor no qual os amantes melhoram a alma um do outro através da filosofia.


Notas

1. Uma das razões deste equívoco talvez seja a leitura superficial de Platão como o filósofo que desenvolveu a "teoria das idéias", como aquele que criou um outro mundo no qual existem as "idéias" das quais o mundo físico é apenas uma "cópia". Desta leitura equivocada de sua teoria geral das idéias para a concepção de que o "amor" também seria, como as outras idéias, algo fora do mundo físico, real e efetivo, basta um pequeno salto. 

Outra razão deste equívoco pode se dar pela própria leitura de "O banquete". Durante o diálogo, um belo e jovem general e político, Alcibíades, chega bêbado e conta sobre um episódio com Sócrates. Ele afirma que uma vez, estando sozinho com o filósofo de Atenas, este resistiu às suas investidas sexuais, e daí muitos chegaram a interpretar esta recusa de Sócrates como um modelo do que seria o "amor platônico".

David Hume: causa e efeito são meros produtos do hábito

Posted: 27.4.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Imagine o momento em que Adão é criado por Deus, já adulto. Ele então é colocado diante de uma fogueira e tem que dizer o que acontecerá se um objeto for colocado no fogo. Seria possível a Adão inferir que do fogo sairá fumaça, sendo que ele nunca viu algo se queimando antes?

David Hume afirma que não. Que todo o nosso conhecimento advém da experiência, e que o próprio conceito de causa e efeito são meros produtos do hábito. E mais: que a nossa capacidade de prever eventos futuros, baseados na causalidade, não é nada mais que costume, e que não podemos garantir que as coisas futuras continuarão sendo como as passadas.

Hume usa o exemplo de um jogo de sinuca para ilustrar a relação típica entre causa e efeito. Após uma bola de bilhar em movimento tocar uma segunda, esta também entra em movimento. É evidente, afirma Hume, que as duas bolas se tocaram antes que o movimento de uma fosse comunicado à outra, e que não houve intervalo entre o choque e o movimento. Assim, contiguidade no tempo e no espaço é um requisito para a operação de todas as causas, assim como a causa deve ter uma prioridade no tempo.

Ao vermos situações semelhantes se repetindo, percebemos uma constante conjunção de causa e efeito, de modo que esta constância completa a série das únicas três circunstâncias que explicam a causalidade: contiguidade, prioridade e conjunção constante, além das quais nada pode ser identificado.

No entanto, um homem sem nenhuma experiência do mundo, como aquele Adão criado já adulto por Deus, jamais poderia inferir que uma bola de bilhar, ao ser tocada por uma outra já em movimento, também seria colocada em movimento. Isso é, não há nada que a razão veja na causa que lhe faça inferir o efeito. Se tal fosse possível, resultaria em uma demonstração fundada meramente na comparação de idéias. Mas isso não é possível, de modo que a mente, por si só, pode conceber qualquer efeito seguindo de qualquer causa, pois o que quer que concebamos, isso é possível (pelo menos metafisicamente). Portanto, conclui Hume, não há demonstração para nenhuma conjunção de causa e efeito.

Todos os raciocínios concernentes a causa e efeito se fundam na experiência, e todos os concernentes à experiência se fundam na suposição de que o curso da natureza continuará uniforme. O Adão fictício de Hume nunca poderia demonstrar que o curso da natureza seria sempre o mesmo. A tentativa de fundamentar a regularidade do curso da natureza redunda em uma circularidade. Para demonstrar que o futuro segue geralmente o curso do passado, temos que apontar para a experiência, isso é, a probabilidade fundamenta a própria experiência, de modo que teríamos o seguinte argumento tautológico: "se o futuro seguiu até hoje o curso do passado, então o futuro continuará sempre seguindo o curso do passado". A experiência do passado não é prova de nada quanto ao futuro. É unicamente pelo costume que supomos que o futuro será semelhante ao passado. Assim, não é a razão que guia a vida, mas o costume.

Sobre a arte de conversar

Posted: 25.4.18 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Conversar não consiste apenas em falar e ouvir. Conversar é uma arte, uma performance que envolve duas ou mais pessoas. Talvez poderíamos até mesmo dizer que a conversação é um jogo no qual todos ganham, em que não há vencedor e perdedor, mas que possui, como toda disputa, certas regras mais ou menos definidas.

Foi para tentar salvar a tradicional arte da conversação, que parecia em declínio em sua época, que o enciclopedista francês André Morellet publicou em 1812 "Sobre a conversação", ensaio no qual enumera os onze principais vícios que estragam qualquer conversa. Estes erros são 1) a desatenção; 2) o hábito de interromper e falar vários ao mesmo tempo; 3) o afã exagerado de mostrar espírito; 4) o egoísmo; 5) o despotismo ou o espírito de dominação; 6) o pedantismo; 7) a falta de continuidade na conversação; 8) o espírito de pilhéria; 9) o espírito de disputa; 10) a disputa e 11) a conversação particular em substituição à conversação geral. Vamos falar sobre alguns desses vícios.

A desatenção é um dos piores vícios na conversação. Ela fere, ofende, rebaixa aquele que fala. Segundo Morellet, "a obrigação de escutar é uma lei social que é infringida incessantemente". A desatenção hoje ganhou novas formas, e uma das principais é aquela devida ao uso de dispositivos eletrônicos como celulares e tablets. Quem nunca passou pela desagradável situação de disputar a atenção de alguém contra uma atraente tela luminosa?

O hábito de interromper é um dos mais irritantes. Esta é a prática de "interromper continuamente aquele que está falando, antes que tenha acabado sua frase e dado a entender todo o seu pensamento". Muitas vezes ocorre na tentativa de completar o pensamento de quem está falando, como se quem interrompesse soubesse o que ainda está para ser dito. Morellet afirma que este vício era tão difundido na França de sua época que, certa vez, o astrônomo Mairan propôs a seus confrades: "Senhores, proponho-lhes determinar que aqui falarão somente quatro ao mesmo tempo; talvez possamos chegar a entender-nos".

A pretensão a ter espírito também causa grande desprazer na conversação. Uma de suas formas consiste em mostrar "ter opiniões já formadas sobre todos os assuntos tratados", como se aquilo que o indivíduo está dizendo fosse uma opinião sólida, formada há muito tempo, e que naquele assunto ele não tem mais nada a aprender. Um grande problema nisso, segundo Morellet, é que ao pedir a esses indivíduos para aprofundar o que acabaram de dizer, geralmente repetem tudo o que disseram e encontram grandes dificuldades para sustentar sua vaidade. "Todo o mundo", afirma Morellet, "se vangloria de trazer, à sociedade, suas opiniões já formadas, porque cada qual quer que pensem que leu, estudou e refletiu sobre os temas que são tratados". Esta vaidade de exibir uma opinião definitiva sobre questões que jamais se examinaram, porém, é o grande caráter da ignorância, pois "o homem que aprendeu muito é aquele que sabe melhor que ainda tem muitas coisas para aprender, e este também não enrubesce de não saber tudo".

É de fato muito estranho, afirma Morellet, que pessoas que nunca tiveram senão pouco contato com certa matéria tenham a pretensão de ter idéias formadas e definitivas sobre questões muito difíceis, e de saber tudo, sem jamais ter aprendido nada. Uma das origens deste erro consiste em pensar que os assuntos concernentes às ciências humanas, por não possuirem um vocabulário hermético como o das ciências exatadas e tratarem de temas da vida comum, são por isso um campo aberto a qualquer indivíduo, e que todos podem adicionar sua própria opinião e rivalizar com as conclusões dos grandes estudiosos de cada tema. Se um homem não estudou política ou filosofia moral, por exemplo, não tem mais autoridade para emitir sua opinião nessas áreas do que teria no campo da física ou da química.

O pedantismo, outro forte candidato a estragar qualquer conversa, consiste no "uso demasiado frequente e descabido de nossos conhecimentos na conversação comum e a fraqueza que faz com que se dê a tais conhecimentos uma importância exagerada". Este vício tem muito a ver também com o tom: é pedante aquele que fala com os outros como se estivesse dando aula, como um mestre fala aos discípulos. Uma variação do pedantismo é o "purismo", que consiste na escolha minuciosa das palavras, a busca do termo perfeito. Às vezes o pedante purista troca uma palavra comum por outra menos familiar com o intuito de expressar melhor seu pensamento mas, no final das contas, o efeito é o contrário.

A falta de continuidade na conversação é outro dos erros mais comuns. É a desconexão, a falta de ligação entre as idéias. Dentro de uma mesma conversa, abrem-se parênteses dentro de parênteses, um assunto leva a outro, que leva a um próximo, quando então se percebe que o curso da conversa não parece ter nada a ver com o tema em que se estava. Frequentemente surge a pergunta: "por que estávamos falando disso mesmo?". Às vezes é inócuo divagar, afastar um pouco do tema principal e depois retornar à trilha principal da conversa, pois isso pode tornar a conversa mais agradável. É necessário estar atento, porém, à frequência e ao grau em que nos afastamos do tópico da conversação.

O espírito de pilhéria é um vício desagradável, embora o objetivo do pilheriador seja o oposto. Este é o vício de procurar ser divertido na conversação, o que em si não é reprovável, contanto que não ultrapasse certos limites. Há indivíduos que buscam ver um lado ridículo em qualquer assunto que se toque, por mais sério que seja. "Desvirtuam assim, com uma palavra, o que se disse de mais engenhoso e, algumas vezes, de mais profundo". O espírito pilheriador fica atento a cada termo em busca de um trocadilho, de um jogo de palavras, dando atenção não às idéias às quais as palavras fazem referência, mas apenas às palavras em si, enquanto sílabas e sons.

A conversação, seja entre duas pessoas ou em grupo, é um dos principais prazeres sociais, um momento único e ímpar de troca, de crescimento e de aprendizado. Nossas mentes fixam a atenção muito mais naquilo que é ouvido em uma conversa do que naquilo que é lido em um livro. Segundo Montaigne, o estudo dos livros é um movimento lânguido e fraco, que não se inflama. Na conversação, ao contrário, confere-se ao espírito mais atividade, à memória mais firmeza e, ao juízo, mais penetração, pois "a necessidade de falar claramente leva a encontrar expressões mais corretas." Aprender a conversar, portanto, nos torna não apenas pessoas mais agradáveis, mas também pessoas melhores.

Sobre o sucessor de Lula: uma reflexão de Platão

Posted: 5.3.18 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A discussão sobre a formação de novos quadros surge vez ou outra na esfera política diante da necessidade de renovação. Na esquerda brasileira, tornou-se comum a reclamação de que o PT não formou um sucessor ao Lula, um quadro político que pudesse substituí-lo à altura. 

Este tema, contudo, não é novo na civilização ocidental. Há mais de dois mil anos Platão se ocupou desta questão em sua obra "Mênon". A questão não é se o PT criou ou deixou de criar um sucessor; a questão é se isso é mesmo possível.

Em uma discussão sobre a virtude e a possibilidade de se transmití-la, Sócrates examina, primeiro, se a virtude é uma ciência. Se for uma ciência, então deve ser possível ensiná-la. Um bom político, por exemplo, poderia ensinar outro a ser um bom político. Ele se utiliza então do exemplo de Temístocles e de alguns outros políticos atenienses para esclarecer a questão.

Sócrates observa que Temístocles, mesmo sendo um político virtuoso, foi incapaz de transmitir a outros sua virtude. Ele não conseguiu ensiná-la nem mesmo a seus filhos, embora os tivesse treinado em diversas outras artes, como cavalgar. E por que ele ensinou tantas coisas a seus filhos, mas não a ser um político virtuoso? Não seria por que a virtude não é possível de ser ensinada? O mesmo aconteceu com diversos outros políticos gregos, que ensinaram seus filhos música, luta e tudo que podiam, menos a virtude política.

- Sócrates: Certamente houve muitos bons homens; mas a questão é saber se foram também bons mestres de sua própria virtude; não se existiram homens bons, mas se a virtude pode ser ensinada. a questão é se esses homens sabiam como transmitir a virtude que tinham em si mesmos, ou seria a virtude algo incapaz de ser comunicada e transmitida de um homem a outro? Temístocles foi um homem bom?
- Ânito: Certamente, não houve melhor.
- Sócrates: E ele não deve ter sido também um grande mestre de sua virtude?
- Ânito: Certamente, se ele quisesse.
- Sócrates: Ele não teria querido que outros se tornassem bons, ou pelo menos seu próprio filho? Não ouviste que ele ensinou seu filho Cleofanto a ser um bom cavaleiro?
- Ânito: Ouvi sim.
- Sócrates: Então ninguém diria que era ruim a natureza de seu filho.
- Ânito: Certamente não.
- Sócrates: E você já ouviu alguém dizer que Cleofanto tenha se tornado bom e sábio como seu pai?
- Ânito: Não.
- Sócrates: Mas quis Temístocles ensinar todas as outras coisas a seu filho, mas não a virtude, aquilo no qual foi mestre?
- Ânito: Provalmente não!
- Sócrates: Aristides também não é outro exemplo de ateniense que educou seu filho Lisímaco mais perfeitamente que todos naquilo que dependia de mestres? Mas fez dele um homem melhor que qualquer outro? E Péricles, que foi pai de Páralo e Xantipo?
- Ânito: Sei.
- Sócrates: E ele os ensinou a ser cavaleiros melhores do que qualquer outro em Atenas, na música, na luta e em tudo mais. Mas bons homens, não os quis fazer? Acho que sim, mas isso não é coisa que se ensina. Pense também em Tucídides, pai de Melésias e Estéfano. E se virtude fosse algo que se ensina, e sem gastar dinheiro, não o teria feito?
- Ânito: Sócrates, parece que levianamente falas mal dos outros. Eu recomendaria que fosses mais cauteloso. Não há cidade em que não seja mais fácil fazer mal do que bem aos outros, e este também é o caso de Atenas.
- Sócrates: Veja, mênon, parece que Ânito está irritado, pois crê que estou denegrindo estes homens, e julga que é um deles. Mas me diga, não há também em vossa terra homens de bem?
- Mênon: Perfeitamente.
- Sócrates: E eles se dispõe a ensinar aos jovens? E se professam professores e que a virtude é algo que se ensina?
- Mênon: Às vezes dizem que se ensina, às vezes, que não.
- Sócrates: Devemos dizer que são mestres nessa matéria, esses que nem sequer concordam neste ponto?
- Mênon: Acho que não, Sócrates.
- Sócrates: Mas e esses sofistas, os únicos a se considerarem capazes de ensinar a virtude?
- Mênon: Górgias nunca promete isso, Sócrates. Ele apenas ri quando ouve outros afirmando tal coisa. Ele acha que os homens devem ser ensinados a falar.
- Sócrates: Então você não acha que os sofistas são professores?
- Mênon: Não sei dizer, Sócrates. Às vezes acho que sim, às vezes acho que não.
- Sócrates: Se nem os sofistas e nem os homens de bem podem ser mestres nessa matéria, não é claro que não pode haver outros?
- Mênon: É claro.
- Sócrates: E se não há mestres, também não há discípulos?
- Mênon: De acordo.
- Sócrates: E se não há mestres e nem pupilos, então a virtude não pode ser ensinada?
- mênon: Não pode ser ensinada, se estamos certos em nossa visão. Mas não posso acreditar, Sócrates, que não há homens bons. E se eles existem, como eles se tornam assim?

(Platão, "Mênon")

Entrevista de Glauber Ataide para o filme Conservadorismo em Foco

Posted: 21.1.18 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Entrevista com Glauber Ataide para o filme Conservadorismo em Foco sobre a questão da comunicação na internet, jornadas de junho, filosofia e eleições.


Resenha de 13 reasons why - o suicídio como vingança

Posted: 15.1.18 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Albert Camus afirma que o único problema filosófico realmente sério é o suicídio. Saber se vale a pena continuar vivendo ou não diante do absurdo da existência é uma questão que antecede a todas as outras, e foi com esta perspectiva que comecei a acompanhar 13 reasons why.

Mas quanto maior a expectativa, maior a decepção. Se você espera questões existenciais profundas nesta série, desista. A repercussão de 13 reasons why nas redes sociais foi desproporcional à profundidade com que o tema do suicídio foi ali abordado. Ao invés de uma angústia profunda diante da inevitabilidade da morte, por exemplo, a série lida com problemas bem menores de uma adolescente no ensino médio. Em todo caso, a obra teve o mérito de pelo menos suscitar a discussão, como esta breve resenha está fazendo agora.

O suicídio como vingança

13 reasons why é uma série que, em certa medida, apresenta o suicídio como um ato de vingança. A impostação e o tom de voz de Hannah Baker em suas primeiras fitas parecia o de alguém com um prazer, digamos, catártico em acusar seus colegas. Suas palavras soavam como um ato de retribuição, de pagamento, de justiçamento por tudo que ela havia sofrido e estava narrando.

Uma das primeiras associações que me ocorreu durante o início da série foi um trecho do romance existencialista A queda, de Albert Camus, o qual trata do suicídio como vingança. A passagem que citamos abaixo parece descrever o que deve ter se passado na cabeça de Hannah Baker ao decidir tirar sua própria vida:

"Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu o descobri no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça, para puni-los, de certa forma. Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria punido. Compreendi que não tinha amigos. Além disso, mesmo se os tivesse, não adiantaria nada. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então, sim, valeria a pena." (Albert Camus, A queda)

Ao gravar as fitas e preparar sua morte, Hannah Baker podia apenas imaginar a reação dos seus colegas diante de seu suicídio. Mas somos apenas nós, os telespectadores, que podemos realmente acompanhar os desdobramentos de sua decisão. Do ponto de vista do personagem de Camus, só valeria a pena Hannah Baker se matar se fosse possível ver a cara dos seus "amigos" de escola. Teria Hannah Baker se matado se ela pudesse ver que praticamente ninguém se sentiu realmente punido por sua morte?

A reação geral ao seu suicídio foi mais de surpresa do que de punição, exatamente como na passagem de Albert Camus. A grande preocupação de cada um daqueles mencionados nas fitas foi a de se livrar das acusações, preservar sua reputação e não compromenter seu futuro (alguns poderiam não ganhar bolsa na faculdade caso estivessem envolvidos em processos judiciais). Não foi uma preocupação verdadeira com o outro, mas consigo próprio. Quem mais sentiu sua perda, de fato, foram Clay Jensen (seu romance nunca consumado) e seus pais. Mas seus alvos não eram seus pais ou Clay. As fitas não foram gravadas para eles. O suicídio de Hannah, enquanto ato de punição, de nada valeu.

Três questões sobre o suicídio

Dentre as questões importantes que a série traz para a discussão, gostaria de mencionar três. A primeira é que ninguém precisa de boas razões para se matar. Algumas das situações pelas quais Hannah Baker passou são comuns a todos, e poucos se matam por isso. Quem nunca se sentiu traído por pessoas que acreditávamos serem nossos amigos? Quem nunca se sentiu sozinho em meio a um multidão? Quem não sente que as relações hoje são superficiais ou, para usar um termo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, líquidas? A maioria de nós, de alguma maneira, suporta essa situações, e se matar por causa disso parece um exagero.

A segunda questão que eu destacaria coloca um contraponto à primeira: o sofrimento de cada pessoa não é quantificável e deve ser respeitado. Encontramos na própria sala de aula de Hannah Baker outros alunos que também não eram populares, que passavam por situações delicadas em casa ou na escola, mas que não tomaram o mesmo caminho. O que é suportável para um indivíduo, no entanto, pode não ser para outro, e nunca podemos julgar o tamanho do sofrimento de alguém nas alegadas "razões" de seu sofrimento.

A terceira questão é que as "razões" do sofrimento de alguém são, muitas das vezes, apenas razões encobridoras. Na psicanálise, razões encobridoras são aquelas utilizadas para justificar comportamentos ou sentimentos cuja causa real desconhecemos. Se Hannah Baker sentiu de modo tão profundo um ato de traição de seus amigos de modo a contabilizá-lo como uma das razões de seu suicídio, o psicanalista irá investigar qual a situação mais profunda, arquetípica e (provavelmente) infantil que está influenciando seu comportamento hoje.

Alerta

13 reasons why levante o debate até mesmo entre aqueles que, como eu, não gostaram da superficialidade com que o tema foi abordado. Teria sido essa superficialidade proposital? Talvez sim, e para mostrar justamente que quem se mata raramente tem alguma "boa" razão a partir de nosso ponto de vista.

As treze razões do suicídio de Hannah Baker parecem tolas a um adulto que já passou pela maioria daquelas situações, mas pode ser insuportável para alguns adolescentes. Isso liga o nosso sinal de alerta para o fato de que, muitas vezes, quem pensa em se matar não comunica suas intenções, e que seu sofrimento é guardado em segredo, velado e imperceptível. É necessário ter mais sensibilidade ao sofrimento alheio, tendo sempre em mente que dor é algo que não se quantifica, e que as razões enunciadas para um suicídio geralmente apenas encobrem as razões reais inconscientes.

E se organizassem exposições com capas de discos de metal e hard rock?

Posted: 22.11.17 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Por AD Luna
ad.luna@gmail.com

Nesses tempos de obscurantismo, fundamentalismos e censura a obras de arte, uma coisa intrigante tem acontecido: a adesão de inúmeros fãs de metal e hard rock a ações conservadoras e reacionárias. Seja em comentários a postagens em redes sociais, em sites especializados ou mesmo em conversas cara a cara, é possível ler ou escutar discursos que tratam da "defesa da família, da moral, dos bons costumes e da religião" (cristã, principalmente).

A situação é curiosa porque, dentro do universo dos estilos citados, não faltam exemplos de expressões de ideias que questionam, ridicularizam, provocam e entram em choque com os valores defendidos por conservadores.

E se neste momento centros culturais e museus, no Brasil, resolvessem realizar exposições com capas polêmicas de discos de metal e hard rock? Como reagiriam os "cidadãos de bem" das guitarras distorcidas, sendo que muitos dos grupos citados abaixo são amados por eles e/ou servem de referência e influência para músicos e bandas do mundo inteiro?

E se políticos da chamada bancada evangélica se derem conta que crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens têm acesso fácil a tanta safadeza e blasfêmias? Os metaleiros e metaleiras vão ficar do lado da liberdade de expressão ou do espírito repressor de deputados, vereadores, prefeitos e juízes "protetores da decência e da fé cristã"?

Iron Maiden - capa do single Sanctuary

Aqui o Eddie, mascote do grupo, assassina a dama de ferro Margareth Thatcher, ídola de muitos liberais. Maiden terrorista, esquerdopata?




Dio - capa do disco Holy diver

O cantor que passou pelo Rainbow, Black Sabbath e Heaven and Hell (o qual, na verdade, era o Sabbath da era Dio ressurgida, com outro nome) apresenta nesta capa um ser que claramente tenta salvar um sacerdote acorrentado, que parece se afogar em um rio. Exemplo de solidariedade.



Black Sabbath

Sabbath bloody sabbath - Uma legião de demônios e um ratinho atormentam um pobre cidadão. Na cama, o famoso 666, o número da besta do apocalipse, segundo a Bíblia.



Born again - um lindo bebê demoníaco. Quem vai criar e levar o menininho pra ser batizado?



Heaven and Hell - Heaven and hell

Disco do Sabbath "alternativo", com Dio no vocal e Vinnie Appice na bateria.



AC/DC - Highway to hell

O que são esses chifres na cabeça do guitarrista Angus Young? Foi traído pelo seu amor? E o cara que está ao lado direito dele, seria o cantor romântico brasileiro Odair José?



Whitesnake

Essa boquinha da cobra na capa do disco Come an'get it lembrou alguma outra coisa...



Motörhead

Dizem que se a pessoa juntar a capa do álbum Sacrifice, da banda de Lemmy, com a capa do Whitesnake, do cantor David Coverdale, o Fábio Júnior do hard rock, uma nova e terrível criatura poderá surgir.



Fonte das imagens dos discos do Whitesnake e Motörhead: blog Rock Dissidente

Steel Panther - All you can eat

Minha vó super devota católica, já falecida, talvez não curtisse muito essa festinha aí.



Slayer

O curioso no Slayer é que, mesmo com capas como essas, o vocalista e baixista Tom Araya se define como bastante católico. E não é ironia minha. Talvez seja dele...




Mercyful Fate - Não quebre o juramento. O aviso parte esse senhor envolto em chamas. Na contra capa, foto do vocalista King Diamond, o Diamante Rei. Dizem os maledicentes que o "Rei" aí seria Satanás. Mas também pode ser uma alusão a Pelé, o Rei do Futebol.


Celtic Frost - To Mega Therion

Obviamente, H.R. Giger, o autor deste desenho já está condenado às chamas do inferno.


Triptykon - Eparistera daimones

Esta é mais uma obra do artista suíço H.R. Giger (1940 – 2014), responsável pela imagem principal desta matéria. A banda Triptykon também é liderada por Tom Warrior, antigo vocalista da finada Celtic Frost.


Os traços que ilustram essa capa certamente devem chamar atenção de fãs de filmes de ficção científica de terror. Sim, Giger foi o responsável pelo design da famosa criatura de Alien - o oitavo passageiro e suas continuações.

Isso foi apenas uma pequena amostra da enorme quantidade de capas não muito cidadãs de bem que pululam no mundo do metal e hard rock. Mas nenhuma delas é tão assustadora e escandalosa quanto a da dupla de cantores abaixo. Não deixem seus filhos e filhas se encantarem pelo violento som desses malignos.


Ouça o som do Louvin Brothers




Como complemento à matéria acima, aí vão mais algumas capas de discos de metal de causar arrepios à família tradicional e ao cidadão de bem.

Deicide - Scars of the crucifix



Deicide - Serpents of the light



Deicide - Once upon the cross




Rotting Christ - Thy mighty contract



Bathory - Bathory




Bathory - Under the sign of the black mark



Belphegor - Lucifer incestus




Belphegor - The last supper




Samael - Ceremony of opposites



Kreator - At the pulse of Kapitulation




Os tipos de desejos em Epicuro

Posted: 21.9.17 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Epicuro observou e distinguiu os desejos humanos em três categorias: 1) desejos naturais e necessários, 2) desejos naturais, mas não-necessários, e 3) desejos não-naturais e não necessários.

No primeiro grupo ele classificou os desejos ligados à conservação da vida do indivíduo. Estes seriam os únicos válidos, pois subtraem a dor do corpo. Exemplos seriam comer quando se está com fome, beber quando se está com sede, repousar quando se está cansado, etc.

No segundo grupo se enquadram os desejos oriundos de variações supérfluas dos prazeres naturais: comer bem, beber bebidas refinadas, vestir-se com luxo, etc. Precisamos comer e beber para sobreviver, mas para isso não é necessário comer bem ou beber bebidas refinadas.

No terceiro grupo estão os desejos "vãos", nascidos das "vãs opiniões dos homens", que são os desejos ligados à obtenção de riqueza, poder, honras, etc.

Para o filósofo do jardim, somente os desejos e prazeres do primeiro grupo são sempre plenamente satisfeitos, pois têm por natureza um limite preciso que consiste na eliminação da dor. Uma vez que essa foi eliminada, o prazer não cresce mais, ou seja, não conduz ao vício.

Os do segundo grupo já não têm esse limite, e por isso podem provocar dano, assim como os do terceiro, que ainda por cima produzem perturbações na alma. Estes últimos são os piores, pois não conhecem limites naturais. Se alguém deseja riqueza ou poder, não importa o quanto tenha, sempre buscará mais. Estes desejos não são naturais aos seres humanos, mas são inculcados pela sociedade e por falsas crenças sobre o que realmente precisamos.

O epicurismo defendia, por essa razão, que a riqueza está inteira no pão, na água e num abrigo qualquer para o corpo, pois a riqueza supérflua traz para a alma uma ilimitada aspiração de desejos, o que será causa de dor e perturbação.

Notas sobre a homossexualidade em Freud

Posted: 19.9.17 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A homossexualidade, para Freud, não é nenhum tipo de “desvio” de comportamento ou doença. Para o pai da psicanálise, todos os seres humanos são originariamente bissexuais, e “a psicanálise permite-nos apontar para um vestígio ou outro de uma escolha homossexual em todos os indivíduos”.

A homossexualidade é muito mais comum e natural do que poderiam suspeitar os conservadores. No artigo O caso Schreber, Freud afirma que “de modo geral, todo ser humano oscila, ao longo da vida, entre sentimentos heterossexuais e homossexuais.” 

Este mesmo ponto de vista é reafirmado em A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher: “Em todos nós, no decorrer da vida, a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos”. Mais adiante, ele continua: “A psicanálise possui uma base comum com a biologia, ao pressupor uma bissexualidade original nos seres humanos”. 

O que definirá a preponderância da chamada “escolha objetal” de um indivíduo por pessoas do mesmo sexo não pode ser definido de antemão. Na perspectiva da psicanálise a homossexualidade não é, de forma alguma, “antinatural” ou um “desvio” de qualquer natureza. 

Segundo Freud, “uma medida muito considerável de homossexualismo latente ou inconsciente pode ser detectada em todas as pessoas normais” (isso é, não acometidas por neuroses), e levando em consideração diversas descobertas da psicanálise sobre o assunto, “cai por terra a suposição de que a natureza criou, de maneira aberrante, um “terceiro sexo”.

Em sua experiência clínica, Freud afirma jamais ter passado “por uma só psicanálise de um homem ou de uma mulher sem ter de levar em conta uma corrente homossexual bastante significativa.”

Inferno da ciência

Posted: 25.8.17 by Glauber Ataide in Marcadores:
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"Bem-vinda ao inferno da ciência, professora. Este é o Tony, ele viu uma vez, na internet, algo sobre sua área de especialização e vai passar a eternidade inteira lhe dando aulas sobre o assunto." (Charge de Tom Gauld)